O Brasil não se lembrava da Amazônia, e por vaidade de alguns militares no poder, decidiram que o país necessitava de uma fábrica de aviões com a escolha recaindo em favor dos Pipers. A frota da Amazônia era quase toda Cessna, com pequena parte Bechcraft. Portando, isso contrariava a tudo e todos. Ficamos impedidos por ato excepcional de importar novos Cessnas. Nossa ferramenta de trabalho tornou se discriminada e abandonada à própria sorte com a agravante de ser a mais velha frota em trabalho pesado do mundo.
Em 1981, realizei o antigo sonho de visitar a fábrica dos Cessnas. Enquanto conhecia como se fabricavam os aviões nos quais tanto confiávamos, problemas de uso e manutenção apareceram, chamando a atenção, o que por se só justificava minha visita. Se já históricos aviões, construíram histórias.
Um Cessna Centurion 210 foi centro de atenções no garimpo chamado Mundo Novo, através de um fato insólito e hilário. Wílson pousou com excesso de peso na pequena pista, depois de uma chuva torrencial. Não deu outra: o avião se atolou. Um dos recursos que usávamos nesses casos era alguém sentar-se na cauda para aliviar o peso da bequilha, a roda da frente. Então girávamos as rodas de trás, desatolando a aeronave.
Ele adotou o procedimento comum. Descarregou o avião, um homem sentou-se na cauda, segurando-se na deriva. Acelerou bem devagar e saiu do atoleiro. Seguiu na direção da cantina, que ficava no princípio da pista. Porém, sem sair do avião, resolveu decolar, e deixar para a segunda viagem seu acerto com o dono da carga. Assim que alcançou velocidade de ganhar o céu, percebeu que o avião estranhamente começava a entortar a direção, e a vibrar. Não podia mais abortar a decolagem por ser uma pista de “caixão”, com árvores altas nas cabeceiras e dos lados.
O aparelho continuava vibrando e não aceitando velocidades inferiores a cento e quinze milhas, como também acima de cento e trinta ou cento quarenta. Ficou naquele meio-termo e adernando para a direita. Wilson começou a chamar pelo rádio, prevendo o pior. Outros aviões foram se aproximando dele, procurando ver o que acontecera externamente. Estupefatos, logo notaram que havia um cara barbudo sentado na cauda, e lhe comunicaram o fato. Não conseguindo acreditar, Wilson mais nervoso ficou por achar que os colegas estavam brincando com ele em hora tão aflitiva.
Resolveu olhar e, estarrecido, viu um barbudo sentado lá, com as pernas dobradas para trás, o braço encaixado na deriva, bem agarrado. A força do vento açoitava as narinas do “carona”, fazendo-o ficar com bochechas de palhaço, e os olhos fechados. Sem entrar em pânico, decidiu não transpor a selva bruta. Começou a rodar por ali, e chegar à pista mais próxima, a oito minutos dali, perto do Rio Novo. Voaria em cima da parte mais profunda do rio, na menor velocidade possível. Agoniado, fazia sinal para o homem pular na água. E o barbudo, mal se aguentando, levantava o dedinho sinalizando “não”.
Com tantos outros aviões circulando à sua volta, Wílson foi se acalmando. Com o centro de gravidade do avião totalmente deslocado, cruzou o matão bruto até a pista do Armando, pois nela poderia entrar mais veloz e, talvez, pousar, por ser muito comprida. Seria uma novidade na aviação. Evidentemente, se ele reduzisse muito a velocidade, a cauda, excessivamente pesada, chegaria pousando primeiro que as rodas. Um espetáculo dantesco: o avião com o nariz lá em cima, e o cara sentado atrás. Se muito veloz, vararia a pista e iria mato adentro, merda do mesmo jeito.
Conseguiu pousar com sucesso, apoiado pela grande torcida. Quando Wilson parou, e desceu do avião, o barbudo pulou rápido no chão. Todos preocupados, pensando que estaria traumatizado, e o vagabundo a gritar que era o Barba de Aço, e merecia um gole de pinga boa. Falara que voaria naquele troço de qualquer maneira, voara, e dali para frente, avião que não o coubesse dentro, iria levá-lo no rabo ventoso.
Wilson, aviador experiente, respeitadíssimo por todos na área do Rio Tapajós, recém-saído daquela situação de alto risco, com raiva, afirmava que naquela aviação irresponsável não voaria mais. Decolou para Itaituba, juntou seus panos de bunda, e tomou o rumo de São Paulo.
Contei esse caso na fábrica da Cessna, e não acreditaram. O engenheiro que desenvolveu o 210 apertou um bocado de botões na maquininha de cálculo, ultrassofisticada, com senos e cossenos, e deu o veredito: o avião não voaria com ninguém sentado ali atrás, muito menos conseguiria pousar. Teimei e afirmei haver testemunhas, às pencas. Minhas “mentiras” foram extremamente eficientes e suficientes para que, ávidos, rapidamente, os homens da Cessna decidissem vir para cá. Estavam animados e curiosos sobre os pilotos e a operação da frota na Amazônia. Tive o prazer de voar com os engenheiros americanos que construíram os modelos 206 e 210.
Fiz com eles o primeiro pouso no meu garimpo Rosa de Maio. Sabia que “go ahead” significa arremeter. Quando entrei para pousar, e um dos engenheiros percebeu que a pista subia um morro, descia e subia de novo, não tendo mais de quatrocentos metros, começou a berrar em total desespero “go ahead”, “go ahead”. Eu fingindo não entender e ele, a um segundo de um enfarte, fraco repetia “go ahead”. Pousei, desliguei o motor, e calmamente perguntei-lhe que diabo de histeria era “go ahead”.
José Altino
Jornalista diário, escritor, aviador, ex-fundador da União Sindical dos Garimpeiros da Amazônia Legal, ex-membro do Conselho Superior de Minas.