Políticos experientes como José Sarney e outros de perfil apaziguador, o aconselharam a recuar em alguns comportamentos. Ocorre que Bolsonaro é, na verdade, consultor de si mesmo e sempre chega à conclusão de que está certo nas tomadas de decisão. Bolsonaro também tem o hábito dos velhos políticos populistas que ouvem mais seus motoristas e seguranças do que técnicos e assessores qualificados. Como se sabe a galera da geral sempre gosta de ver os conflitos terminarem numa boa briga de rua, preferência com sangue e com direito ao acervo de palavrões próprios dos guetos perigosos. O ambiente da CPI da COVID bem reflete a consequência desse desequilíbrio comportamental do presidente.
Na última sexta-feira (26), o ambiente da CPI, que não é nenhum lugar sacro, estava aguardando os depoimentos do deputado federal Luís Miranda e de seu irmão Ricardo Miranda, ambos afirmando que o presidente Bolsonaro foi comunicado de uma suposta corrupção no Ministério da Saúde na aquisição da vacina Covaxin, de procedência indiana. O falante Deputado Luís Miranda, desde o início de seu depoimento, deu evidências de que tinha uma estratégia de não revelar o nome de um deputado supostamente citado por Bolsonaro como responsável pela falcatrua. Ocorre que depois de apertado pelos integrantes da comissão resolveu – como dizem os malacos na delegacia – entregar a bocada. Era tudo que a oposição queria.
O Deputado Luís Miranda declarou que o deputado citado por Bolsonaro como supostamente envolvido na corrupção na aquisição da vacina Covaxin era o líder do governo, Deputado Ricardo Barros. Essa revelação dá a CPI da Covid um novo status: a de deflagradora de um possível processo de impeachment por prevaricação contra Bolsonaro. Para quem não sabe, a prevaricação é um tipo penal, aparentemente de pequeno potencial ofensivo contra os servidores de baixo escalão, mas de uma letalidade extrema contra autoridade da estatura do presidente Bolsonaro, capaz, inclusive, de despejá-lo do abrigo presidencial. Em linguagem bolsonarista prevaricador é aquele que deixa roubar. Bolsonaro que gosta de citar a surrada frase bíblica “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”, revela que não segue à risca seu conteúdo. Nesse cenário, é bom dar uma olhadinha na frase lapidar de Churchill: “a verdade é inconvertível, malícia pode atacá-la, a ignorância pode zombar dela, mas, no fim, lá está ela”.