Há histórias que comovem, sobretudo aquelas que fazem parte de nossa própria experiência. Na última sexta-feira (24), o jornalista, psicólogo, advogado e sociólogo Carlos lobato, convidou-me para um café executivo. O local escolhido, como de praxe, foi um café classe média alta, casas que tem por hábito frequentar. Ele, como eu, experimentou a infância pobre dos meninos da periferia, filho de operário, cujo futuro era uma incógnita. Há certa altura, contou-me o comovente caso de três garotos que, com coletes de treino de escolinha de futebol, entraram na cafeteria e, ao fazer o pedido, perceberam que não tinham dinheiro suficiente para fazer o pagamento. Percebendo a enrascada, Carlos lobato comprometeu-se a fazer o pagamento, usando o artifício de que apoiava aqueles que praticavam o futebol. A cena, segundo Carlos Lobato, marejou os olhos de todos. Ao sair, os garotos agradeceram o gesto e prometeram que o próximo gol que marcassem seria “pra você, tio”, num gesto inocente e sincero de gratidão.
Carlos lobato lembrou a história que sempre conto nas rodas de conversa. Aos 9 anos já ajudava meu pai no seu trabalho. Certa vez, papai foi contratado para fazer a reforma de uma loja denominada Clay Modas, cujo proprietário era o empresário Antônio Carlos Brito de Lima. Na loja tinha uma vistosa vitrine de sapatos chiques, impossíveis de serem adquiridos pelo poder de compra de meu pai. Ali, todos os dias, eu alimentava o sonho do menino pobre que almejava usar um sapato chique. Fui flagrado pelo dono da loja num desses devaneios. “Seu Lima” me perguntou: voce quer o sapato? Surpreso, não soube como responder. Ele, então, chamou sua esposa Jamile e mandou que tirasse da vitrine o sapato de meus sonhos. Entregou-me com a ternura e sorriso de um anjo. As lágrimas vieram e, ali, num pacto interno e sincero, jurei que um dia pagaria o inesquecível gesto.
Passado uma década, já era jogador de futebol, “Seu Lima” foi contratar-me para jogar no Trem Desportivo Clube, após ter sido um dos destaques da Seleção Amapaense de Juniores. Ao perguntar quanto seria o valor das luvas para assinar contrato, não titubeei: – o senhor já me pagou “Seu Lima”, há dez anos quando me deu de presente um sapato chique. Surpreso, fez um esforço mental para lembrar do fato. Deu-me um abraço fraterno e, comovido, conteve minhas lágrimas. Tempos depois, mais uma vez, nos encontramos, quando, eu já como advogado, exercia a função de Procurador Geral do Município de Macapá. Novamente lembramos do episódio do sapato e as lágrimas foram inevitáveis. “Seu Lima” permanecerá para sempre nas minhas orações, eis que seu gesto transcende o tempo e minha gratidão jamais cessará.
O gesto de Carlos Lobato ao socorrer os meninos na cafeteria me debruça sobre um dos valores mais caros deixado pelos meus pais. Ainda hoje a imagem de agradecimento diário pela vida que meus pais faziam permanece acesa e viva. A Bíblia aberta na mão de meu pai e o terço entre os dedos de minha mãe no exercício solene da gratidão serão minhas alegorias eternas. Uma frase de Hermann Hesse sempre alimentou minha utopia: “Só há felicidade se não exigirmos nada do amanhã e aceitarmos do hoje, com gratidão, o que nos trouxer. A hora mágica chega sempre”. Assim há de ser! Os sapatos chiques, na minha experiência, e as contas pagas aos meninos da escolinha de futebol, são gratuidades divinas que sempre virão pelas mãos Deus, por intermédio de seus anjos, que os coloca propositadamente nos nossos caminhos, cuja recompensa será nosso gesto de gratidão, mesmo que dure um tempo.