Os EUA apresentaram-se aqui, dias atrás, com imenso porta-aviões. Ficou na Baía da Guanabara, próximo ao aeroporto Santos Dumont, ao porto do Rio, ao centro da cidade e à Ponte Rio – Niterói.
Agora, a Rússia apresenta ao mundo parte da sua frota nas imediações de Cuba: um submarino por propulsão nuclear e uma Fragata. A manobra chegou a gerar pergunta sobre a possibilidade de ali se criar base militar russa.
Seriam fatos isolados, desconectados? Se não correspondem a diretas manobras de ação e reação, não deixam de estar contextualizadas na polarização do mundo, por mais que este esteja sob um sistema de avançada globalização e de mundialização do capital. Tanto é assim que, em reação, os EUA enviaram submarino nuclear de ação rápida para Guantánamo.
Não se tratam de armas para enfrentamento imediato. Não tendem a se enfrentar com disparos iminentes. Estão em movimento e exposição pelas dinâmicas dos jogos de Poder. Tucídides já falava disso há cerca de 2.500 anos, no contexto da Guerra de Peloponeso, entre Atenas e Esparta. A Armadilha de Tucídides representa o confronto crescente e gradativo entre as forças que se opõem. Cada passo de uma potência acarreta uma reação e, assim, num crescendo, as forças vão sendo gradativamente aumentadas e, sim, também o tom vai subindo.
Desdobramentos desses ensinamentos também lemos no Leviatã, de Thomas Hobbes. Nesse clássico, a escalada crescente vai seguindo por todos os lados, em torno de um aparente equilíbrio. Nenhum dos lados quer deixar o outro ser superior ou perder vantagens estratégicas.
Na prática, isso significa aumentos constantes com gastos, investimentos e pesquisas. A corrida armamentista, típica dos primeiros tempos da Guerra Fria, na verdade não foi datada. De um modo ou de outro continua a nos assombrar.
Aliás, a polarização não mais, hoje, se dá sob o enfrentamento de duas forças dominantes, como eram no passado, em torno dos EUA e Rússia e os seus correspondentes aliados. O cenário tem um grande terceiro ator: a China. A propósito, a ìndia também tem armas nucleares. Cada um desses quer crescer mais do que os demais e ampliar a sua área de influência, o que significa paz e segurança interna e o controle das fontes minerais como petróleo e gás, água, carvão, ferro, etc. Além disso, inegavelmente a questão da soberania alimentar e do controle dos fluxos de produção de alimentos interessa a todos e a cada um.
Um sinal da polarização, talvez bem representativo de movimento mais abrangente, está na Guerra da Ucrânia. De um lado e de outro se equilibram forças poderosas, potencializadas pela influência e atração política dos respectivos aliados e apoiadores. Mesmo os neutros influenciam a potencialização das forças expostas.
Detalhe relevante, que merece ser inserido nesse contexto, foi o pronunciamento ao Conselho de Segurança da ONU, feito pelo Ministro das Relações Exteriores da Rússia, no mês de abril, com abordagem sobre os riscos de conflito entre as potências. Como consequencia, o Secretário-Geral da ONU considerou que estão elevadas as tensões entre as grandes potências.
Quem não se recorda que chegamos à beira de uma real guerra nuclear, retratado em filme e livro, sobre os 13 dias que abalaram o mundo, em torno do incidente dos misseis nucleares que Rússia instalavam em Cuba. Estaria a história se repetindo? Qual o limite para a Armadilha de Tucídides? Qual o limite dessa reação à ação alheia? Até onde se chegaria, só ou com aliados? E o custo disso?
Ao mesmo tempo, vemos renascer o interesse por viagens ao espaço e o Japão se tornou o quinto país a chegar à lua, juntando-se ao pequeno clube formado por EUA, Rússia (antiga União Soviética), China e Índia. As viagens espaciais não deixaram de ser símbolo do domínio tecnológico. Um tipo de cartão de visita. Só que, atualmente, essas aventuras espaciais envolvem um propósito de expansão dos domínios e de exploração de riquezas por se descobrir.
Paralelamente, mormente em tempos de internet e redes sociais, há uma batalha pela hegemonia nas informações, o monopólio da verdade e os sistemas de fidelização e submissão.
Curioso, também, que essas movimentações em torno da América do Sul e Central sejam contemporâneas à movimentação venezuelana em torno da região de Essequibo, na Guiana, rica em petróleo.
São muitos os interesses diretos e mediatos. São muitas as cordas que ligam um ou outro a determinados fatos. A Geopolítica tem motivos e interesses que nem os nossos sonhos são capazes de imaginar. Aliás, espionagem e coisas afins ocorrem, mas não exatamente como nos filmes de 007, com tanto glamour. Satélites nos acompanham o tempo todo e monitoram o movimento de quartéis, tropas e pessoas, tanto quanto o de naves mercantins e movimento nos portos, mares e aeroportos. Tudo está no tabuleiro.
As falsas percepções do mundo têm sido confrontadas com a verdade e esta, sinal dos tempos, tem sido vítima da dúvida, das fake news, da alta mobilidade das informações e não exatamente da realidade dos fatos. A velocidade benéfica da internet e a alta conexão e conectividade da nossa época acabam produzindo a odiosa situação de não nos dar tempo de conferir ou confirmar o que quer que seja. Em parte, acabamos acreditando no “estão dizendo” como se essa opinião pública – ou melhor, publicada informalmente – fosse significado de correção.
Assim, cresceu exponencialmente a proporção que as coisas tinham nos anos 60. Vivenciamos o tempo de hackers hipoteticamente capazes de desligar cidades inteiras com um comando, desconectar satélites e mexer com o inimaginável.
Este é um tempo perigoso, exatamente por aquilo que não deveria contribuir para essa periculosidade aumentada. O multilateralismo, que significaria a integração de vários parceiros num objetivo comum, talvez tenha atraído riscos antes inexistentes. As distâncias foram encurtadas e essas vantagens trazem desafios. Catástrofes econômicas não podem mais ser varridas para os cantos ou colocadas sob os tapetes. A fome não se esconde das cãmeras, as catástrofes humanitárias não ficam isoladas, as migrações ocorrem em vários locais, do mesmo modo que os ataques ao estado de direito, à liberdade de imprensa, de opiniao e a outros modos de exercício de liberdade.
A democracia tem sido questionada por alguns que conhecem os seus fundamentos e, talvez principalmente, por quem nem a compreende. A polarização do mundo é real e intensa demais, motivada pela proteção aparente que nos dão as redes sociais. Só que essa raiva transborda e sai do mundo virtual para a realidade das ruas, onde se transmuta em raiva incontida, que vaza e estravaza e se potencializa e ganha adesões novas.
Os debates políticos não mais só ocorrem no Parlamento ou em centros de audiência e discussão. O mundo se transformou no palco dessas discussões. Essa “facilidade” talvez tenha feito com que solenidades tenham se desvalorizado. Isso pode soar positivo, mas representa desprestigio a certos valores, com o despertar de influenciadores políticos que não são representantes de visões ideológicas. Esse aspecto atrapalha o debate e fomenta radicalismos onde uma voz se acha dona do discurso legítimo – o que a leva a querer exterminar a outra.
Não há fato isolado. Não há compartimento estanque. Tudo está interligado e isso nos coloca em situação perigosa, quando lembramos que os compartimentos estanques são aquelas subdivisões nos cascos dos navios que, uma vez fechados, não permitem que, em caso de ruptura do casco, não permitem que a água invada o navio a ponto de fazê-lo afundar, como ocorreu com o Titanic.
Estamos todos no mesmo barco e este, decerto, afundará, se o aquecimento dessa etapa da Guerra Fria nos levar a um real confronto entre essas potências que possuem imensos arsenais nucleares - algo que não existia ao tempo de Tucídides.