Poucos tem noção do que ocorre no mundo utópico da energia eólica e o seu futuro. Felicity Bradstock, escritora freelance especializada em Energia e Finanças com mestrado em Desenvolvimento Internacional pela Universidade de Birmingham, Reino Unido, nos conta um pouco do que vem ocorrendo no mundo eólico em seu artigo “A energia eólica tem um problema de lucratividade”, publicado em 19/04/2023 pelo site OILPRICE, que transcrevo trechos.
“Apesar do forte impulso para mudar para o verde instalando mais capacidade de energia renovável, muitos estão se perguntando se o setor de energia eólica será capaz de se recuperar rapidamente das enormes perdas do ano passado para desenvolver a energia eólica necessária para alimentar a transição verde. Em 2022, várias grandes empresas de energia eólica relataram bilhões em perdas devido a uma infinidade de desafios que dificultaram o desenvolvimento de novos parques eólicos em todo o mundo. Agora, o medo é que as empresas em todo o mundo não estejam dispostas a investir nos projetos eólicos necessários para acelerar a mudança dos combustíveis fósseis para alternativas verdes se não puderem ver o potencial de lucros.
A energia eólica cresceu exponencialmente nos últimos anos, graças a uma enorme quantidade de financiamento em pesquisa e desenvolvimento e à implantação de vários parques eólicos onshore e offshore em grande escala em todo o mundo. Inovações na tecnologia de turbinas levaram ao desenvolvimento de geradores de energia gigantes que são muito mais seguros, confiáveis e silenciosos do que seus antecessores.
Apesar do forte crescimento na última década, as empresas estão percebendo que é difícil traduzir a energia eólica em lucros. Não há problema quando se trata da demanda global por energia eólica, que continua a crescer ano após ano, à medida que os países tentam reduzir sua dependência de combustíveis fósseis. Mas a pesquisa e desenvolvimento de energia eólica, assim como a construção de enormes parques eólicos, não sai barato e o retorno até agora não é o que muitas empresas esperavam.
Em junho do ano passado, houve relatos de que algumas das maiores empresas de energia eólica do mundo estavam enfrentando pesadas perdas. A Vestas Wind Systems, a General Electric Co e a Siemens Gamesa Renewable Energy enfrentaram custos extremamente altos de matéria-prima e logística após a pandemia, quando as cadeias de suprimentos foram interrompidas. Isso aconteceu depois de uma corrida armamentista na qual as principais empresas eólicas competiam para construir as turbinas eólicas mais altas e mais poderosas a qualquer custo que as colocasse à frente do resto. Ben Backwell, CEO do grupo comercial Global Wind Energy Council, afirmou: ‘O que estou vendo é uma falha colossal do mercado’. Backwell acrescentou: ‘O risco é que não estamos no caminho para [emissões] líquidas – e o outro risco são os contratos da cadeia de suprimentos, em vez de expandir’.
Em novembro de 2022, a GE previa perdas de US$ 2 bilhões em sua divisão de energia renovável, em grande parte devido à inflação e aos desafios da cadeia de suprimentos. Isso levou a empresa a fazer cortes, com planos de reduzir seu número global de funcionários em instalações onshore em 20% ao longo de um ano. Muitas empresas eólicas sentiram o triplo golpe da inflação, incentivos fiscais reduzidos e aumento das taxas de juros do ano passado, aumentando as interrupções na cadeia de suprimentos da pandemia. A Vestas, maior fabricante mundial de turbinas eólicas, registrou seu primeiro prejuízo anual em quase uma década em 2022, de cerca de US$ 1,68 bilhão. A empresa disse que suas vendas no ano passado caíram cerca de 7% e enfrentou custos crescentes em várias áreas. A empresa declarou em seu relatório anual ‘A Vestas e a indústria eólica estavam prontas para fornecer soluções para enfrentar a crise de energia, mas foram limitadas por aumentos de custos, desafios logísticos, projetos de mercado desatualizados e processos de licenciamento. Enquanto isso, a Siemens Energy relatou um prejuízo líquido de mais de US$ 943,48 milhões.
Aaron Barr, um analista da indústria da Wood Mackenzie, afirmou : ‘O mercado de energia eólica está preso neste paradoxo muito estranho agora… Temos a melhor certeza de política climática de longo prazo de todos os tempos, em todos os maiores mercados, mas estamos lutando contra um período em que toda a indústria, principalmente a cadeia de suprimentos, foi atingida por problemas que culminaram na destruição das margens de lucro e na execução de muitos dos principais OEMs [fabricantes de equipamentos originais] e seus fornecedores de componentes em território de lucratividade negativa.’
A promessa de alta demanda e novas doações e subsídios estão mantendo o ânimo da indústria de energia eólica em alta, e podemos esperar mais incentivos para a nova capacidade eólica em todo o mundo, à medida que outros países e regiões introduzem suas próprias políticas climáticas. Mas os governos de todo o mundo devem continuar a fornecer incentivos para incentivar um maior desenvolvimento para garantir que as empresas não sejam dissuadidas por grandes perdas recentes de lançar novos projetos eólicos.”
É fácil vislumbrar o futuro da energia eólica, sem falar que somente funciona quando há vento. O que faz qualquer empresa funcionar é lucro e investimentos que tenham retorno a curto prazo. Fora desta equação somente um louco investiria na energia eólica sem subsídios governamentais. O sonho de qualquer ser humano é gastar o dinheiro de outrem e não o seu suado e rico dinheirinho. Esta lógica é também o que move as empresas do ramo eólico que estão ansiosas pelos investimentos públicos dos países que sonham com um novo mundo movido por energia eólica.
Diante deste raciocínio gostaria de sugerir aos leitores que adivinhassem quem pagará a conta da energia eólica. Naturalmente o pagador da conta seremos nós, inicialmente como contribuintes e posteriormente como consumidores. Iremos pagar para que nos cobrem preços escorchantes da energia eólica no novo mundo utópico onde os mais pobres conviverão com energia elétrica inacessível. Prevejo um enorme crescimento das empresas fabricantes de lampiões e lamparinas, isto é pressupondo o crescimento dos biocombustíveis, porquanto os combustíveis fosseis estão sendo banidos.
“O fraco vence o mais forte pela Lei da Retidão. Verdadeiramente essa Lei é a Verdade (Satya); Portanto, quando um homem fala a Verdade, eles dizem, Ele fala Justiça; e se ele fala Justiça, eles dizem, Ele fala a Verdade! Pois ambos são um” — Brihadaranyaka Upanishad, I.4.xiv