Um gaúcho rude, que gastou a maior parte da vida guerreando. Virou mito pela sua coragem, determinação e lealdade ao Estado brasileiro. Em dezembro de 1868, durante a batalha de Avaí na Guerra do Paraguai, um tiro do inimigo dilacerou seu rosto, quebrou sua mandíbula, mas ele continuou em combate, firme, dando ordens e lutando. Só saiu do campo de batalha carregado, nocauteado pela hemorragia….
Naquele mesmo dezembro, no campo de batalha de Itororó, Luís Alves de Lima e Silva, então Marquês de Caxias, liderava as tropas brasileiras na tomada de uma ponte. O fogo do inimigo era pesado e os soldados brasileiros começaram a fugir amedrontados.
Caxias desembainhou a espada, esporeou o cavalo e partiu para cima do inimigo gritando: “Sigam-me os que forem brasileiros”. Os soldados interromperam a fuga e seguiram Caxias, que encarou um intenso tiroteio no qual seu cavalo foi morto. Ele seguiu a pé e venceu a batalha.
Tinha ferimentos, mas nada grave. Tinham muitos mortos ao seu redor, cheiro de pólvora, sangue, carne queimada e dilacerada. Dali, ele partiu para tomar Assunção e vencer a guerra.
Osório, tantas vezes ferido em combate, deixou lições dentro e fora dos campos de batalha. Duas delas são essenciais para se entender o papel das Forças Armadas:
A primeira: “Em matéria de serviço público, eu não indago o que são brasileiros na política, porém, se cumprem o seu dever pelo bem da Pátria”.
A segunda: “Seria um desgraçado aquele que, depois de haver combatido com as armas da guerra o inimigo externo, pusesse depois essas mesmas armas a serviço do despotismo, de perseguições e violências contra seus compatriotas”.
O Duque e o General do Povo deixaram um legado que inspirou as gerações de soldados. Ambos jamais admitiriam um golpe de Estado contra o imperador D. Pedro 2º. Não foi por mero acaso que a derrubada do governo imperial e a Proclamação da República só foram possíveis depois da morte dos 2.
O Exército é a instituição mais antiga do país. Tem 375 anos de História. Existe desde a Batalha dos Guararapes, em 19 de abril de 1648, com Felipe Camarão, André Vidal de Negreiros e João Fernandes Vieira, comandantes da retomada de Pernambuco, então em mãos holandesas.
Desde o golpe militar que instituiu a República, o Exército brasileiro viveu altos e baixos, como a glória dos pracinhas na 2ª Guerra ou a batalha contra o inimigo interno na ditadura militar, a coisa de matar a que se referiu o então presidente Ernesto Geisel ao seu ministro do Exército Dale Coutinho. O Exército voltou para os quartéis depois da redemocratização iniciada em 1985 e concluída com a Constituição de 1988.
Saiu dos quartéis novamente com a eleição de Jair Bolsonaro, em 2018. Este, que ao deixar o poder, entregou às Forças Armadas a pior herança dos últimos 40 anos: a perda do prestígio e do respeito pela sociedade.
É difícil entender como generais experientes se deixaram envolver em situações como a do hacker de Araraquara, Walter Delgatti, notadamente envolvido com política desde o episódio da Vaza Jato.
O homem jura que esteve com o então ministro da Defesa e ajudou a elaborar um relatório sobre supostas vulnerabilidades da urna eletrônica. Depois, contaminou o presidente do PL Valdemar Costa Neto, levado pela deputada Carla Zambelli, aquela que sacou uma pistola no meio da rua em São Paulo na véspera da eleição. Fala sério…
É espantoso como miudezas e mesquinharias se tornaram cotidianas dentro do Palácio do Planalto desde que os civis foram apartados do núcleo duro do poder. Não tenho a menor ideia do que mais pode aparecer depois da venda de joias e dos trocados que teriam sido entregues por Mauro Cid a Bolsonaro. Mas estou certo de que nada mais nos surpreenderá.
Tudo isso mostra que Bolsonaro foi derrotado por ele mesmo, perdeu o poder muito mais pelos seus erros do que pelos acertos do presidente Lula.
Os civis sem envolvimento direto com o núcleo duro militar souberam andar pelas próprias pernas, seguiram em frente como o governador Tarcísio de Freitas, a senadora Tereza Cristina, o embaixador Carlos Alberto França e o procurador-geral da República Augusto Aras, este último um exemplo de servidor público que soube colocar sua função de Estado acima da política e da politicagem.
Na edição de 6ª feira (18.ago.2023) do jornal Valor Econômico uma pesquisa mostra o quanto a imagem das Forças Armadas foi ferida pelas trapalhadas do ex-presidente e seu núcleo duro. A consultoria Quaest pesquisou o X (ex-Twitter) e constatou um percentual significativo das mensagens negativas sobre militares. No mês de maio, eram 45% de menções positivas contra 55% de negativas, uma tendência que deve se acentuar ainda mais.
O Brasil teve a sorte de ganhar um ministro da Defesa com a competência e a experiência de José Múcio Monteiro. Foi por sua ação pacificadora eficaz que a situação não piorou para os militares. O ministro soube conter a sangria….
Agora, chegou o momento de resgatar o que de melhor há na essência das Forças Armadas Brasileiras: o profissionalismo e a coragem para enfrentar a piores dificuldades, como fizeram Caxias em Itororó e Osório em Avaí.