Como conceito, nada muito diferente dos fatos históricos ou do cotidiano. O futuro vaticinado não seria muito diferente da Versailles dos tempos áureos, onde poucos tinham tudo e a escassez e o trabalho ficavam para o povo.
A inteligência artificial chegou e as máquinas ganham potencialidades para decidir. O que isso significará, exatamente, no futuro? Chegaríamos ao caos, com as máquinas dominando os humanos, no velho tema da criatura que se revolta com o seu criador?
Nada será como antes, mesmo após o mundo e os seres vivos presenciarem tantas transformações, como as ocorridas nestes últimos 250 anos, com invenções como trens, carros, aviões, radares, televisão, tomografia, raio x, antibióticos, telefone, eletricidade, computadores, viagens à lua e satélites em órbita.
Até aqui, a nossa inteligência determinava tudo e os talentos eram valorizados, das lutas no Coliseu às composições musicais e da sensibilidade dos escritores e poetas à interpretação dos fatos e definição da melhor solução para o problema nas decisões empresariais e governamentais.
Agora surge algo que a ficção científica já nos antecipava como realidade e que, já nos seus primeiros sinais, parece assustar a nossa percepção.
Há meses noticiou-se que a inteligência artificial terminou a 10ª Sinfonia, composição que Beethoven deixou inacabada!
Pode ser uma excelente experiência tecnológica, o que não nega a sensação de que outro ser humano ou máquina não deveria concluir obra de Beethoven. Certas coisas são o que são e por isso são raras ou insubstituíveis.
Convenhamos, nada substitui a sensibilidade única, da Ave Maria, composta por Gounod. Nada se equipara ou substitui a exclusividade das peças de Beethoven, Mozart, Chopin ou as melodias compostas ou cantadas por Sinatra, Beatles, Tom Jobim, Cartola ou Elis.
A questão parece estar muito além da experiência tecnológica, diante da ousadia de se simplificar a arte musical através de modelo matemático.
Não duvido que, no futuro, surja modelo que aponte detalhe, digno de alteração, no David de Michelangelo, na Torre Eiffel ou na Grande Muralha da China.
O entusiasmo inicial das experiências tecnológicas parece nos levar a extremos e a ferir a lógica da nossa inteligência. Algo assim prospera livremente ou deve sofrer logo delimitação ética clara e em espectro global, sob pena de se tornar, em breve, realidade dominante no cenário mundial, transformando em realidade os detalhes mais utópicos da nossa fértil imaginação.
Não sem motivo, vozes se fazem ouvir com advertências dos perigos da inteligência artificial, inclusive de alguns dos seus entusiastas iniciais, como Elon Musk, que sugeriu pausa no seu desenvolvimento.
Quando surgiram as primeiras máquinas de escrever anulou-se sentença que foi datilografada e não toda manuscrita e, nos tempos da Revolução Industrial, na Inglaterra, máquinas de tecelagem foram quebradas para que não prejudicassem os empregos. São exemplos de que, mesmo se não aceitas inicialmente, as tecnologias e inovações não sofrerão modulações no seu uso. Entretanto, convenhamos, nenhuma das experiências passadas soava tão transformadora quanto a modelagem da inteligência artificial.
Já se fala na inteligência generativa, capaz de produzir padrões de solução autônomas e sem estímulo externo, gerando frases, cálculos, possibilidades e elementos agregadores para alcançar o melhor resultado. Qual será o limite? Poderia essa autonomia chegar a um momento de impasse, quando o “botão” de desligar possa não funcionar por boicote do próprio sistema, num tipo de autossobrevivência?
A coisa é tão disruptiva que já se falou em criar modelo de inteligência artificial que seja capaz de diferenciar o que é real e o que é falso! Isso é demonstração de confiança no que se avizinha ou de preocupação com o que poderá ganhar vida?
Será que imaginam chegar a um momento em que os nossos sentidos naturais não sejam capazes de ter a certeza de que estamos vivenciando realidade ou ilusão?
Estamos falando de algo tão distópico e complexo que afetaria a nossa consciência e compreensão dos fatos e emoções, bem como a organização, o funcionamento social e os padrões estruturantes da nossa inteligência e ética. Um mundo de pessoas perdidas entre alucinações, falta de contato com a realidade e diminuição da empatia…
Quantas doenças psiquiátricas se desenvolveriam, pelas extremadas sensações reais de depressão, ansiedade, ataques de pânico, mania de perseguição, confusão, sono, percepção distorcida, despersonalização e conflitos emocionais?
Além disso, será que haveria um padrão de inteligência artificial que pudesse distinguir o real do falso e “aderir” ao modelo inicialmente proposto, permanentemente se autoprogramando para alcançar o padrão originalmente alvitrado, de eficiência, produtividade ou minimização de custos? Essa autoprogramação seria passível de algum tipo de freio ou controle humano, se chegar a elevado nível de complexidade?
Noutro foco, como há muito dinheiro envolvido em pesquisas e aplicações empíricas úteis no cotidiano, o conjunto não receberá outro tratamento senão o fomento, parecendo, mesmo, que o céu será o limite.
O ponto de reflexão não está naquele céu, mas no rastro infernal que possivelmente deixará para trás, com reflexos na nossa humanidade e no campo do poder, da dominação e da “humanização” das máquinas, algo, decerto, muito além das artes e das tecnológicas de uso industrial, médico e doméstico, pois a ferramenta talvez vá aos limites do que nos faz seres humanos, não sofrendo influências éticas ou morais ou temendo apertar o “botão vermelho” em caso de iminente conflito nuclear, já que as máquinas “não pensam” e, sim, agem segundo padrões de programação e, agora e cada vez mais, autoprogramação, em busca dos melhores resultados que o seu sistema possa assegurar…
Que a inteligência artificial não venha a ser tão autossuficiente a ponto de não só golpear a inteligência humana como, também, para proteger o meio ambiente e encerrar de vez as guerras entre os homens, acabar com essa humanidade tão desumana, com o simples apertar de um botão.