Como qualquer pessoa sabe o uso da máscara é um poderoso instrumento para coibir a proliferação do coronavírus e evitar mais mortes. Cogitar de não usá-la, no atual contexto da pandemia em solo brasileiro, é empurrar os brasileiros para o tenebroso abismo da morte. Estamos nos aproximando de quase meio milhão de almas enterradas por causa do Covid19. O pior de tudo foi a forma como essa audaciosa intenção do presidente foi anunciada. Em uma solenidade, com um sorriso cínico e demorado, afirmou que a imprensa, já tinha sua pauta para o dia seguinte, que seria o pedido que fez ao Ministro da Saúde para um estudo de flexibilização do uso da máscara. Ele previu, com certo ar de satisfação, que seria massacrado pela intenção.
Proferir frases irresponsáveis e polêmicas no exercício de uma relevante função pública já revela um comportamento incompatível com a grandeza do cargo de qualquer agente público. No caso de um presidente da república essa anomalia beira a insanidade no seu mais alto grau. Ser um bom ou mau gestor é natural, afinal, nem todos os exercentes de cargos públicos tem todas as condições morais, materiais, intelectuais, ou competências e habilidades para o exercício escorreito de tão nobre mister. Contudo, a irresponsabilidade e cinismo no exercício dessas atribuições é uma escolha que está acima desses atributos mais específicos e está na esteira de uma manifestação volitiva criminosa e dolosa.
Dizia Maquiavel, na sua clássica teoria do mito do bom governante, que em quase todas as empreitadas humanas, o sucesso depende da capacidade e da excelência da liderança, atributos que revelam a qualidade, as condutas e os valores dos líderes. O atual presidente resvala para a lama fétida do cinismo e da hipocrisia quando, se desbordando do bom senso, ignora as sábias lições de Maquiavel, que prega que tanto as ações dos governantes quanto das instituições devem ser conducentes a uma ordem social de equilíbrio. “Manter o povo satisfeito e não incorrer na ira dos grandes é uma circunstância que expressa uma situação de equilíbrio”, diz Aldo Fornazieri, na sua tese de doutorado intitulada “Maquiavel e o bom governo”. Com cinismo e irresponsabilidade, o presidente ignora tudo isso e vai pregando a flexibilização do uso da máscara, cuja consequência são mais mortes, aumentando a contabilidade lúgubre que ele sorridentemente desdenha.