Raimunda Nonata, como sói acontecer com a maioria das mulheres nordestinas, não teve uma vida muito fácil.
Os pais, retirantes, deixaram-na sob os cuidados de uma família e, também como costuma ocorrer, tornou-se uma empregada doméstica juvenil sob o regime de escravidão. Nunca recebeu um salário. Não mais ouviu falar de seus pais que foram prá um “tar de Sumpaulo”.
O povo sofrido do agreste foge da seca e da fome medonha porque o nordeste é como uma medalha perversa: no anverso, o mundo turístico maravilhoso de belos bangalôs, hotéis e praias; no verso, um palco de horrores, que é o sertão onde impera a rainha de todas as necessidades: a fome, que dobra a cerviz e os joelhos do homem orgulhoso e fá-lo suplicar a Deus por clemência!
Não permitiram Nonata estudar, nem passear, nem namorar, nem nada. Em síntese, seu mundo era um nada, não tinha direito a nada, só o prato de comida “malemá”. Sofria muitos abusos, saciando a lascívia do senhorio crápula.
Não mais suportando, fugiu daquela escravidão mascarada de relação trabalhista doméstica.
Analfabeta de pai e mãe, Nonata não encontrou outra opção senão trabalhar num bar com ares de cabaré. Ali, a par da questão moral que envolve o tema, era respeitada pelos seus pares e pela cafetina, que honrava religiosamente seu contrato naquele ambiente espúrio.
Nonata era uma mulher muito inteligente, com a garra e a perseverança que fazem da mulher nordestina uma guerreira incansável. Alguns anos depois, Nonata já era a dona.
E ali, no vai e vem de seus amores volúveis, germinou uma semente que Nonata nunca soube de quem era. Talvez não lhe fosse relevante, porque entre tantos relacionamentos, buscava em braços anônimos o amor que nunca recebera desde a infância.
Tomou todos os chás de sálvia do mundo, enfiou talo de mamona ferindo o colo do útero… Já pensou? Ela, fruto da pobreza, como iria ganhar seu pão de cada dia? Nonata não tinha nada a oferecer a uma criança. Um filho, nesse cenário, soava irônico.
Mas a barriga volumava sem parar. Na gravidez Nonata se emocionou quando tocou na vitrola um disco do Chico Buarque. Era a música “Minha História”, a versão de Gésubambino (Menino Jesus).
Na letra dessa canção tocante, quando nasceu o fruto do amor com um marinheiro que “partiu não se sabe pra onde, a mãe enrolou-o num manto como se ele fosse assim uma espécie de um santo. E por não se lembrar de acalanto, a pobre mulher ninava o rebento cantando cantigas de cabaré. Por ironia ou por amor, deu-lhe o nome do Nosso Senhor”.
Assim, naquele ambiente, certamente um cabaré cabeça-de-porco de cais como aqueles da Praça Mauá do Rio de Janeiro, os ladrões, as amantes e as colegas de copo e de cruz o chamavam de Menino Jesus. Eis o mote da composição!
Era muita coincidência com a história de Nonata. Igualmente com seu único vestido mais curto, levava a vida vazia de amor, diferente da sonhadora do cais. Mas as mulheres dos bordéis também se entregam por amor, um “privilégio” perverso.
Após ouvir a música e com remorso por tentar tirar aquela vida do seu ventre, rezou todas as Aves Marias e Pai Nossos de joelhos num canto do salão fechado depois do rendez-vous.
Aquela noite foi um velar de insônia atroz. E no meio dos seus sonhos de menina, Raimunda Nonata sentiu uma luz, uma força cósmica que entrou como uma flecha no seu peito.
Um intenso raio azul que perpassou por todos os raios de luz existentes. Mal sabia que aquele raio era um anjo, que sempre está no comando das hostes que militam contra as forças do mal.
Na manhã seguinte, aquela futura mãe, não entendendo bem o significado daquela mensagem, foi à pequena capela e de joelhos pediu perdão pelos seus pecados e o padre lhe explicou:
-Minha filha, o pecado está na nossa mente e na nossa alma. Não no nosso corpo. Você é uma filha de Deus e veio à terra para uma provação que pode até não ser sua. Eu, em nome de Jesus, lhe perdôo.
E continuou o padre:
-Essa luz azul que desceu do céu foi um anjo, um mensageiro do pai celestial.
-Padre, o que são anjos?
-Minha filha, como diz em Hebreus 1,14, os anjos são espíritos que foram criados por Deus para nos ajudar na salvação, nos combates da nossa vida.
-E que anjo era esse, padre?
-Esse anjo, pelas características, sem dúvida nenhuma era o guardião celeste, o príncipe e guerreiro, chefe supremo do exército dos céus, aquele que defende o trono celestial. O nome dele é Miguel Arcanjo, conhecido também como o Arcanjo da justiça e Arcanjo do arrependimento, o grande combatente e vencedor das forças do mal.
-O Livro Sagrado fala sobre uma grande batalha nos céus entre o exército dos anjos de Deus, liderado por Miguel, e o exército de satanás. Satanás perdeu e foi lançado à terra. Vou ler para você minha filha!
Apocalipse 12:7-9:
“7 E houve batalha no céu; Miguel e os seus anjos batalhavam contra o dragão, e batalhavam o dragão e os seus anjos;
8 Mas não prevaleceram, nem mais o seu lugar se achou nos céus.
9 E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, chamada o Diabo, e Satanás, que engana todo o mundo; ele foi precipitado na terra, e os seus anjos foram lançados com ele”.
Nonata virou devota de São Miguel Arcanjo para pedir-lhe que a livrasse das ciladas do demônio e dos espíritos maléficos. E defender a si e ao nascituro com o grande poder que Deus lhe concedeu contra os perigos, as forças do mal e os inimigos.
Quando seu filho deu os primeiros choros ao ver a luz fustigante que lhe atingia os olhos, era uma luz intensa, novamente muito azul, ela o batizou de Miguel Arcanjo.
O cabaré em festa recebeu aquele menino como se fosse, sim, uma espécie de um santo. E perguntaram a ela, entre os copos de bebida e a música de forró ao fundo, porque o nome Miguel Arcanjo. Nonata respondeu:
-Minhas amigas, Miguel é um arcanjo – um príncipe entre os anjos, ou anjo principal. Ele tem mais poder que os outros anjos. Miguel é um grande guerreiro do povo de Deus. E Miguel Arcanjo vai ser o meu guerreiro, vai me defender e me cuidar até o último suspiro da minha vida.
Bem, com certeza o pai do menino era cearense porque parecia um “ETzinho”, tinha mais cabeça que corpo e por conta desse detalhe costumam fazer piadas:
-Meu “fio”, vai ali na feira, traz uma dúzia de laranja e 2 kg de carne de bode!
-Cadê a sacola, meu paizinho?
-Não precisa, traz no bonezinho, Mundico! (rss)
Mas havia mais semelhança com a música porque logo o cabaré todo viu que ali não estava uma simples criança. Era totalmente fora da curva, precoce e dotado de inteligência privilegiada. E Miguel Arcanjo cresceu dentro daquele cabaré.
Inteligentíssimo, mas medroso. Tinha medo de tudo. Bastava miado de um gato, um barulho de um copo estilhaçando, ele esbugalhava os olhos naquela cabeça enorme e chorava desesperadamente. Possivelmente um trauma do medo da morte desde as entranhas do ventre ou uma mensagem vinda do inconsciente, aquele pedaço submerso e insondável do cérebro, que os psicólogos e psiquiatras até hoje não compreendem.
E sua mãe lhe falava:
-Meu “fio”, homem medroso não presta, nem mulher gosta dele. Não tenha medo da vida.
Miguel foi crescendo. Esperto, saudável, queria logo trabalhar como todos meninos nordestinos que veem suas infâncias roubadas no serviço braçal para não passarem fome.
Pela sua vontade, Miguel queria abandonar o banco da escola de taipa humilde onde foi alfabetizado pela cartilha “Caminho Suave”.
No seu raciocínio, já sabia ler e não precisava de mais nada.
Mas Nonata lhe advertia:
-Estuda meu “fio”, caneta é mais leve que enxada…
Miguel Arcanjo então sonhou ir para a Escola Agrícola de Crato (CE), localizada no sopé da Chapada do Araripe. Queria ser um técnico agrícola.
Mas Nonata falava a ele que o seu talento dava para mais. Tinha que ser um doutor.
Doutor? Vigemaria, isso era intangível para aquele nordestino “sem eira nem beira”! Nossa, um medo esfriava a espinha de Miguel Arcanjo, tinha medo de sair do seu mundinho pobre, tinha medo do desconhecido. Tinha medo de não passar no vestibular.
Miguel tinha medo de tudo, de cachorro, gato, bode e boi então nem se falava.
Por ironia, era o oposto do Anjo Miguel, o mais valente dos anjos na luta contra o exército de Satanás.
Certa feita, mãe e filho caminhavam pela rua e escutaram um ganir vindo de uma lata de lixo. Era um choro sentido de um cãozinho.
Chorava de frio, de fome e por causa das formigas que lhe comiam vivo. Parecia uma catita, um minúsculo camundongo.
Uma luz azul, novamente, estalou na moleira de Miguel Arcanjo e ele disse para sua mãe:
-Mamãe, que dó! Vou salvar esse bichinho.
E levou o cãozinho para o cabaré e o batizou de Dongo dada a semelhança com camundongo. Dongo virou seu companheiro de tudo. Dongo velava o sono e as noites em claro de Miguel debruçado sobre os livros, lambendo as feridas das muriçocas impiedosas nos pés daquele obcecado estudante.
-Mamãe, baixa o volume da música, assim eu não consigo estudar.
-Meu filho, se eu abaixar o som os clientes vão embora e a gente passa fome!
Por influência de Dongo, amigo fiel e inseparável com o qual dividia a rede e a pouca mistura, Miguel Arcanjo resolvera ser doutor, doutor veterinário, para cuidar dos bichos. Miguel havia vencido o medo, estudava dia e noite ouvindo música de cabaré com som alto e tudo.
Vez por outra, Miguel reclamava da aspereza da vida. E sua mãe lhe dizia:
-Meu “fio”, a vida só é dura prá quem é mole!
E Miguel passou no vestibular da concorrida Universidade Federal do Ceará, nos primeiros lugares, desbancando os burgueses filhinhos de papai de escolas renomadas.
E Miguel Arcanjo virou doutor. Doutor dos bichos. E rodou chão, tornando-se um dos mais renomados veterinários do norte e nordeste do Brasil, uma referência nacional de animais de grande porte e a salvação dos pets das madames.
Um cirurgião com as mãos de um anjo. Toda vez que ele toca as mãos em um animal, um feixe de luz azul vem dos céus. Falam que é São Lázaro a mando de São Miguel Arcanjo. Montou clínica renomada, passou em concurso público de órgão agropecuário.
Casou-se com uma mulher maravilhosa que lhe deu filhos e netos igualmente maravilhosos. Venceu na vida por força da perseverança nos estudos, com o suor do rosto e muita dignidade.
Mas Miguel nunca abandonou aquela nordestina guerreira que lhe foi o tudo do nada que ele tinha, porque para ele o único amor verdadeiro é o de mãe, que morre pelo filho.
Já no final da vida, senil e com as pernas amputadas por sequelas de diabete implacável, Raimunda Nonata era cuidada pelas mãos do seu anjo terreno, que lhe dava comida na boca, banho, amor e carinho.
Debaixo do chuveiro, Miguel Arcanjo a banhava no colo. Nonata abraçou o pescoço do filho pela última vez e com aquele semblante de amor que só as mães têm, lhe disse:
-Não tem filho melhor no mundo que você, Miguel. Se Deus fez melhor, ficou pra ele.
E Miguel Arcanjo sentiu as forças de sua mãe esvaindo-se aos poucos.
-Mamãe, por favor, não vá! Tenho medo de perder a mãe mais linda do mundo. O que será de mim sem você, minha mãe maravilhosa?
E Miguel Arcanjo caiu num soluço irremediável, derramando todas as lágrimas no seu rosto rude marcado pelo sol, rugas e cicatrizes da vida.
No último suspiro, Nonata conseguiu ainda pronunciar palavras derradeiras quase inaudíveis:
-Miguel, não chore! Só os diamantes são eternos. Sempre lhe falei que homem medroso não presta pra nada. E você venceu o medo de tudo. Agora, não tenha medo da morte, faz parte do círculo da vida.
De repente, uma intensa luz azul invadiu o recinto e iluminou o coração de Nonata. E uma voz grave veio do nada ecoando no ar, confortando a alma do bom e único filho:
-Missão cumprida, Miguel Arcanjo! Você honrou sua mãe até o último momento – disse-lhe o Anjo Miguel – agora é comigo! Eu cuidarei dela nos Jardins de Alah.
Uma névoa encantada se formou exalando um forte cheiro de mirra – que é a essência feminina do cosmos e representa a manifestação da alma pura e da compreensão plena – e como sagrado incenso subiu aos céus lentamente elevando a alma de Nonata.
E assim o Anjo Miguel a levou para nova missão espiritual na infinitude do universo, incompreensível na sua plenitude no plano material para os reles e efêmeros mortais.