Norberto Bobbio, na primorosa obra “O futuro da democracia”, afirma que a democracia se revela pelo consenso da regra pactuada em mandamentos fundamentais que estabelece quem está autorizado a tomar decisões coletivas. Diz, também, que nenhum governante poderia exercer o poder de forma imperativa, sempre se sujeitando à publicidade de seus atos. Essas diretrizes se impõem para que os governados possam exercer o controle e mensuração da gestão como uma ação de conteúdo coletivo. É essa responsabilidade que vem sendo negligenciada no Brasil e nas unidades federativas. Os indivíduos se colocam em lados opostos, prestigiando a disputa política partidária em detrimento do exercício pleno de corresponsáveis pelas gestões públicas.
No ano das eleições mais importantes para país, há de se reivindicar do cidadão o fiel cumprimento de sua parte como indivíduo protagonista de escolhas para o bem-estar social. Não adianta ter um relevante papel social se seu exercício é feito da pior maneira possível. O primeiro ato para o exercício pleno da cidadania é o sufrágio. Nele há a expressão do compromisso de cada um com o todo social. Se essa oportunidade encerra uma atitude irresponsável não há como imputar aos governantes os resultados desastrosos de uma escolha apartada daquilo que se entende como elemento integrante e essencial do exercício da cidadania.
O exercício do voto neste ano transcende a responsabilidade do voto como veículo de cidadania. Caracteriza-se pelo compromisso de avaliar quem, de fato, em meio ao tormentoso momento pandêmico, pode abraçar os anseios de humanidade, expostos na tragédia humana de enfrentar um inimigo desconhecido, que ceifa vidas por todo o mundo. É hora de averiguar quem, verdadeiramente, se preocupa com a vida, bem jurídico de maior tutela pelo Estado, este criado justamente para salvaguardar o bem comum. Não há espaço para titubeios ou votos de protestos. É hora de separar, pelo voto, quem se veste de governante para buscar soluções para os governados, de quem se rotula de governante para, simplesmente, eviscerar desumanidade com sorrisos macabros próprios de vingadores selvagens. Essa é a nossa parte!