Não se pode negar que foi o MST, com suas ocupações de terras improdutivas, que popularizou um dos cânones da luta camponesa que é a função social da terra. W. H Auden, famoso poeta anglo-americano, disse: “Quando o processo histórico se interrompe…quando a necessidade se associa ao horror e a liberdade ao tédio, a hora é boa para se abrir um bar”. José Ronaldo Abreu, o querido barman Zé Ronaldo, compreendeu bem as sábias palavras de W.H. Auden e abriu o famoso Bar do Abreu em Macapá. O local foi fórum permanente de debates qualificados protagonizados por poetas, músicos, compositores, cronistas, jornalistas, advogados, políticos, barnabés, profissionais liberais de toda ordem, boêmios, e teve uma longeva vida até a partida de seu criador na última semana. Zé Ronaldo, com sua pedagogia boêmia, ensinou a função social do bar.
A tarefa para descrever sobre a função social do bar na visão paroara-tucuju de Zé Ronaldo exigiria a argúcia e a percepção de cronistas do cotidiano como Fernando Canto, Osmar Júnior, Renivaldo Costa, Odilardo lima, só para citar os que ainda estão aqui entre nós. De fato, não é um trabalho fácil. Zé Ronaldo, contudo, “no capricho”, para usar sua expressão mais famosa, deixou algumas dicas. Zé Ronaldo compreendia o bar como recesso de pluralidade, de amor, de companheirismo, de democracia, de risos, de desopilação, de “viagens”, e de compromisso solene com as opiniões que valem por si só, sem a preocupação de encontrar ressonância no mundo sério pós porta da boemia. Esse era o eixo que orientava sua visão sobre a função social do bar.
Há de se ter ousadia argumentativa para desenvolver a teoria de Zé Ronaldo. Renivaldo Costa deixou suas impressões num livro ousado, onde retratou a história e o cotidiano do icônico bar. Fernando Canto, com sua perspicácia de escritor experimentado, também aproveita sua caneta para, aqui e acolá, retratar a função social do bar. Em todas essas visões dos cronistas se observa o dedo polegar de aprovação de Zé Ronaldo, no fundo do bar, no local dos “habituais”, na certeira descrição do jornalista laguinense Edi Prado, que consumiu incontáveis horas de leituras e cervejas nas mesas boêmias do Bar do Abreu.
Se W.H. Auden plantou a semente de descrever o momento histórico oportuno de se abrir um bar, José Ronaldo Abreu teve a preocupação de abrir o debate para sua função social, num flanco em que nenhuma versão triunfa, mas complementa ou contribui para a saudável discussão. O Bar do Abreu, na verdade, não é uma realidade concreta, e, sim, uma abstração sociológica própria para o desenvolvimento de teses. Vale a contribuição do mais simples boêmio, como, por exemplo, do boçal e alegre Tavares, ou do pós-doutor Fernando Canto, com suas reflexões de sisudez acadêmica ou de suas “tiradas” que sempre acabam em piadas. A função social bar pode ser sintetizada na observação arguta do sociólogo Renivaldo Costa, como o fenômeno que resgata a “baixa gastronomia”, com a sobrevivência dos petiscos banidos dos grandes restaurantes, ou lembrando, pomposamente, os cafés franceses, os pub’s ingleses ou as cantinas italianas. O certo é que o grande Zé Ronaldo nos despertou para essa grande tarefa de definir a função social do bar e humildemente partiu.
A partida de Zé Ronaldo Abreu e o debate sobre a função social do bar
