O cartaz de uma rede de supermercado agitou a pacata cidade: “Não percam, amanhã, grande promoção de carnes bovinas, com preços que cabem no seu bolso, somente amanhã”, dizia o enunciado, o qual deixou a população frenética, não se falava mais nada nesse pequeno lugar onde parece nada acontecer. No cartaz, juntamente com as imagens, estavam os preços: Alcatra 19,90, Coxão mole 19,90 – Picanha 25,90 – Filé Mignon 25,90 – Coxão duro 19,90. Logo a notícia espalhou-se pela cidade, algumas pessoas achavam que se tratava de alguma pegadinha.
- Será? Só eu vendo. Dizia uma vizinha meio São Tomé, que só acreditava se visse.
Outra vizinha dizia: – Eu vou estar lá antes de abrir o supermercado, pois vai lotar e eu quero aproveitar esses preços. Imagina, mulher! Comer filé a esse preço logo nas férias!
No dia seguinte, bem antes de abrir o supermercado (abre às 7h) já havia uma fila imensa esperando pela abertura do estabelecimento. Havia pessoas de todo o tipo, do pobre ao mais pobre, todos com expectativa estampada nos olhos. Havia alguma pessoa de classe social mais abastada? Lógico que sim, porém eles não estavam no meio do furdunço, eles vão aparecer em cena mais tarde, somente para pegar as suas encomendas.
Às 7h, abriu o supermercado. Deram a largada. Começou aquele corre-corre para ver quem chegava primeiro para pegar o melhor corte de carne e entre uma gôndola e outra, os clientes iam alargando seus passos. Mas para a surpresa de muitos que achavam que os cortes já estavam lá, todos pontinhos para serem vendidos, se enganaram, pois no enunciado não estava escrito que a promoção viria com tamanha desorganização. As carnes ainda não estavam cortadas em cortes separados, não havia atendentes suficientes para a grande demanda de público que estava no local a fim de comprar carnes mais baratas.
De repente, chega um encarregado com ar de gaiato, querendo ser o protagonista da promoção, gritando: - Está chegando a primeira leva de carne, se preparem. Então, eu vi que um funcionário vinha empurrando um carro grande e fundo de aço cheio de alguns tipos de carne, a qual logo foi coberto por tantas mãos tentando pegar o melhor corte. O funcionário gaiato anunciava que naquela vasilha havia coxão mole e patinho, e que a alcatra viria depois.
Eu percebi que além de você ter que se aventurar por um corte legal de carne, você tinha também que ter algum conhecimento de carne para saber que tipo você estava pegando. Logo que eu vi o montoeiro de gente cobrindo a vasilha de aço, fiquei desencorajado de tentar me embrenhar no meio do povo que ali estava de forma voraz, mas logo pensei: - É melhor lutar por alguns bons cortes de carne do que por ossos, como se via anteriormente em alguns lugares pelo Brasil. Então, tomei coragem e mergulhei naquele mar de braços e mãos em busca de um corte bom, porém tudo em vão, pois acabou muito rápido. Outro carrinho daquele foi anunciado e logo veio mais carne, ou seja, mais coxão mole, patinho e novamente o carrinho foi coberto por braços e mãos querendo o seu pedaço ou pedaços.
- E a alcatra? Alguém perguntava do meio do furdunço em voz alta.
- Ainda está sendo tirada, respondeu, em tom de deboche, o encarregado do setor.
Olhei para o lado e vi que tinha uma fila se formando para ter um atendimento mais adequado e humanizado. Pois bem, achei melhor ir para fila, a qual já estava bem grande, e ali permaneci até chegar a minha vez, mas como não poderia faltar, havia aqueles famosos furões de fila que sempre querem se dar de bem, menosprezando aqueles que ali estavam há algum tempo, aquele jeitinho brasileiro que tanto orgulha qualquer brazuca desonesto.
Finalmente chegou a minha vez, não para ser atendido, a vez de esperar mais um pouco. Como neste supermercado a parte do açougue é de parede de vidro, dava para ver os funcionários cortando a carne e separando os cortes, como dava, também, para ver que eles estavam separando as peças dos cortes mais nobres e ensacando em sacos grandes.
Imaginei que se tratava de peças de nove a dez quilos. Percebi que as pessoas mais abastadas, que não se encontravam na abertura do supermercado, seriam as pessoas agraciadas daquelas peças nobres que estavam sendo separadas. Algumas dessas pessoas eram conhecidas, pois eram proprietários de churrascarias ou restaurantes que estavam ali só para pegar as suas encomendas. Os famosos brazucas que sempre querem se dar bem e sempre se dão.
Olhando aquelas cenas pensei comigo mesmo: - Esses funcionários, que são pobres também, estão com a faca e a carne na mão (para não dizer queijo) para fazer os ricos entenderem que também precisavam ir para a fila, pois eles não são melhores do que ninguém. Entretanto percebi que esses funcionários perderam a oportunidade de priorizar a sua classe, pois ao invés de eles atenderem logo as pessoas que estavam na fila, eles serviam aqueles que deles não fazem caso algum, a não ser quando eles querem ser servidos. Era uma cena triste de ver, pois as pessoas estavam na fila esperando por algo que não viria, pois os seus estavam servindo a outros.
Isso me fez lembrar quando Hitler reunido com os seus generais, pegava uma galinha, a depenava, batia nela, maltratava o pobre animal de todo o jeito, depois a soltava e logo em seguida jogava milho perto dele, e a galinha vinha a ele novamente. Eu acho que eu já vi essa cena há alguns poucos anos.
Pois bem, o funcionário gaiato anunciou em voz alta: – Filé! Quem vai querer? Somente 25,90. Para a minha surpresa, quase ninguém queria filé, alguns perguntavam pelas picanhas, pois o mesmo funcionário disse que havia chegado 150 bois cortados e que teria carne para todo mundo. Algo estava errado ali, porque somente 5 peças de picanha tinham sido vendidas. – Para onde foi o restante? Pensei comigo.
Já era 11 h 30 da manhã e a fila continuava grande. De repente, uma voz se levanta e pergunta: - E a Alcatra? Onde está? – Acabou!! Houve muitas encomendas, respondeu o “funcionário gaiato” com um sorriso sem graça em sua cara de pau.