A síndrome de Estocolmo parece explicar parte desse movimento que se fez pequeno em volume de pessoas, na Argentina, em 20.12, para protestar (já?) contra o pacote de medidas adotado pelo novo presidente, empossado em 10.12. Em 10 dias se fez ato contra algo que pode salvar a Argentina da situação em que está, após tantos anos e sucessivos governos.
A crise não foi plantada pelo atual governo – nem daria tempo – e não tem um autor, sendo consequência de uma sucessão de fatos políticos ao longo do tempo. Não se está, aqui, agora, fazendo apologia do acerto das medidas propostas, nem se cogitando que darão o resultado pretendido. Também não se está defendendo esta ou aquela posição política ou diretriz econômica.
O propósito destas linhas é suscitar a análise do que chamaríamos de “Síndrome de Estocolmo na Política”, a partir do citado exemplo argentino, em que parece haver apego de alguns – ou muitos – a certas práticas e comportamentos, em parte lembrando, com as devidas proporções na comparação, a conduta das vítimas diante dos seus captores.
Antes de prosseguir, é preciso lembrar que a expressão Síndrome de Estocolmo surgiu na Suécia quando, em 1973, na sua capital, assaltantes ingressaram armados em um banco e, sacando a arma, fizeram reféns quatro funcionários. Valendo-se disso, exigiram carro para a fuga, dinheiro e a libertação de um seu cúmplice, que estava preso. Durante o cerco policial, os assaltantes se refugiaram no cofre do banco, levando junto os reféns. Um policial trancou a porta, com todos no seu interior.
Adiante, algo inusitado aconteceu: um dos reféns ligou para o primeiro-ministro da Suécia e pediu pela libertação dos seus supostos algozes, oferecendo-se, inclusive, para ir junto. Se isso já soa estranho, a sequência é fabulosa e surpreendente: os reféns se ofereceram para ser usados como escudo humano, para que pudessem todos sair do cofre e, depois, negaram-se a testemunhar contra os assaltantes a até se arrecadou fundos para financiar a defesa. A impressão é de que algo estaria fora do lugar e que os reféns não agiram segundo o esperado, sendo, natural até que se pensasse que estivessem envolvidos na trama.
No entanto, o psiquiatra e criminologista Nils Bejerot definiu o quadro como a síndrome que nomina este artigo, decorrente de um vínculo ou ligação sentimental ou de empatia da vítima para com o ofensor. Considerou-se que os reféns não tinham sido maltratados, mesmo com as ameaças sofridas e toda a violência envolvida. Temia-se, ainda, um confronto entre os assaltantes e a polícia. No caso citado, interessava às vítimas que os criminosos pudessem sair com segurança do cofre, pois assim todos seriam preservados.
O quadro envolve confusão mental, dependência emocional, distúrbio de estresse pós-traumático, ansiedade, impulsividade, dentre outros. Decorre de uma situação específica e que cria esse contexto de desamparo, vulnerabilidade e extrema submissão.
A confusão mental altera a posição do ofensor típico que é visto por bondoso, piedoso, empático, salvador e garantidor da situação. A vítima se fixa em momentos, nas tortas interpretações do que lhe acontece e se apega em vez de ter repulsa. A situação não é incomum nas relações humanas, onde haja as figuras da vítima e de quem lhe abusa, oprime e manipula.
O ponto de destaque para a análise que se faz é como não haja unanimidade em se torcer para que dê certo o rumo das medidas que se anuncia, na Argentina. A eleição já acabou e ali, durante o processo eleitoral, havia um ringue político onde as ideias e propostas foram apresentadas. Naquele tempo, discordar era natural, parte do processo e salutar. Agora, no momento em que se anuncia proposta que modifica o que não estava dando certo, de imediato dizer que se é contra não significa que se contrarie a política em curso, que sequer teve tempo de se apresentar. Não se age diante de consequência de ato, a certeza de fato ou remédio que não deu certo. Se reage por politicamente ser contrário, lutando-se contra o que o adversário faça, ainda que este esteja, por suposto, certo. Assim, nem pintado de ouro se pode para agradar.
Isso não é resistência ou oposição política, é ser contra – por pressuposto, não por conjectura e suposição. Noutras palavras: ser contra, ainda que seja beneficiário.
É preciso que não se veja isso como parte de um debate político mais amplo. Uma das maravilhas da política democrática é a formação de um caldeirão de ideias e ideais, que permita a coexistência de vários pensamentos e opiniões, bem como de diferentes interpretações da verdade. Essa pluralidade é fundamental para a existência e o aprimoramento da vida em sociedade. Pedras que rolam não criam limo, define antigo provérbio latino e, de fato, estamos sempre aprendendo coisas novas e o mundo está em constante evolução. Sob certo ângulo achar que se é dono da verdade acaba dando margem à pensamentos autoritários, ao negar a possibilidade de outros estarem certos – mesmo o grande filósofo Sócrates dizia que só sabia que nada sabia e Heráclito que, embora a sabedoria seja a meta da alma humana, a pessoa percebe que o desconhecido fica mais longe à medida em que seus conhecimentos avançam.
Portanto, negar ao outro a possibilidade de estar certo está próximo a um pré-conceito pronto e determinado, autoritário e contrário ao aprimoramento e progresso. A liberdade de expressão é fundamental e deve ser defendida a possibilidade de resistência, discordância e manifestação, preferencialmente no plano das ideias, propostas, críticas e sugestões, não em protesto pontual onde a tônica seja ser contra algo que mal se fez.
Soa, de algum modo, a posicionamento de quem se apegou à memória, dogmas e interesses pessoais, conjugado a algo próximo à figura da Síndrome de Estocolmo, com pessoas servindo de escudo humano a parcela do movimento político, se expondo como aríete a algo, exteriorizando dependência emocional, apegados e submissos, homenageando quem criou ou colaborou com a sua derrocada, o seu tropeço, a sua vulnerabilidade e, ainda mais, com o quadro político-econômico de um país belíssimo, com rica história e que já foi um dos mais vigorosos economicamente, tendo o maior PIB per capita do mundo no ano de 1896. De lá para cá, o ocaso até serviu como parâmetro para o que não se fazer, segundo matéria da revista The Economist, de 15.02.2014, intitulada “The Parable of Argentina” (A Parábola da Argentina), falando em lições para governantes sobre os 100 anos de declínio do país.
Que lá, como cá e em qualquer lugar, os debates sejam ricos e prolíficos, claros e em torno de ideias políticas e não por dogmas ou propostas radicais, que pretendam impor uma verdade e combater com rigor e radicalismo as propostas políticas e ideias novas que possam, inclusive, mostrar novos rumos e a luz no final do túnel – e dar certo!