Quaisquer bons adjetivos que possam ser usados para descrever esse filme parecem pequenos demais, pois cada aspecto dele é magnífico. Ele é inspirado na história real da Gunjan Saxena, primeira mulher a ser piloto de combate da Força Aérea Indiana.
O filme já começa com uma cena de puro poder, na qual Gunjan, interpretada por Janhvi Kapoor, sobe no helicóptero para sua primeira missão durante a Guerra de Cargil. A partir daí, há uma retrospecção que vai desde a infância dela, quando ela descobriu o sonho de ser piloto, até o momento inicial, mostrando tudo que ela já havia passado para chegar até ele.
A Índia é um país extremamente machista, e por isso Gunjan enfrentou uma série de dificuldades relacionadas ao preconceito de gênero em sua carreira. Entre o seu processo de seleção e o exercício da sua função em uma base aérea, a misoginia de muitos homens a afetou constantemente, mas ela nunca se deixou abalar. A narrativa discute a importância do feminismo, de as mulheres terem liberdade e espaço para fazerem o que quiserem, e o fato de que isso não diminui em nada masculinidade de nenhum homem. Além disso, a determinação contagiante da protagonista mostra quão importante é correr atrás dos sonhos, mesmo com todas as adversidades.
Culturalmente rico, o longa também evidencia vários aspectos típicos da Índia, e a trilha sonora é composta em sua grande maioria por músicas de lá, todas muito contagiantes. Em um cenário tão alegre, apesar de seus momentos de tensão, as duas horas de filme passam despercebidas.
Feminista, inspirador e encorajador, ele é um perfeito exemplo de que mulheres poderosas empoderam outras. É um filme cinco estrelas, que difere muito do estilo norte-americano e merece todo o reconhecimento do mundo.
American Son
Adaptar peças teatrais para o cinema de um jeito minimamente satisfatório é um desafio, justamente pelo fato de os elementos teatrais, tanto em termos de roteiro, atuação e ambientação diferirem muito dos cinematográficos. ‘’American Son’’ consegue fazer isso com maestria, entregando uma trama pesadíssima sobre o racismo estrutural e o machismo nos EUA.
Todo o filme – que não perde seu ar teatral – Se passa em um dos cômodos de uma delegacia de polícia, na qual uma mãe desesperada com o desaparecimento do filho negro. Focada em apenas quatro personagens – a mãe, o pai, o policial e o tenente – a história se desenvolve entre os diálogos profundos e cheios de informação entre os personagens, mostrando exatamente a tensão de estar ali, principalmente pela ótica da mãe, que é a protagonista. O sistema policial extremamente moroso quanto ao caso do jovem, a visão estereotipada e preconceituosa do pai sobre o filho, mesmo com tantos anos de convivência…entre esses e uma gama de outros dramas reais o enredo tece sua crítica, apontando inclusive preconceitos do próprio espectador.
Cada aprofundamento nos diálogos e de tirar o fôlego, e a obra é incrivelmente triste, o teor de realismo nela, o fato de saber que esse é o drama de muitas famílias negras e inter-raciais só torna tudo ainda mais trágico. É exatamente o tipo de história que fica na cabeça, e esse também é um dos pontos que difere uma boa narrativa de uma facilmente esquecível.
Com eloquência, uma dose cavalar de realidade e críticas firmes, esse drama norte-americano realmente tira o espectador da ‘’caverna’’ e o obriga a refletir.