Um olhar além das esquinas das luxuosas avenidas e vitrines fará qualquer um, sendo humano, estremecer diante de vivências clandestinas, realidade negada e oculta, que sepulta vidas e sonhos por segundos repetidos.
Ouça. Ouça os clamores, os brados e os murmúrios dos indigentes… reverberam nas homilias das capelas e das catedrais imponentes, embora disfarçados por bondades extemporâneas.
Perceba com agudeza de visão. Perceba as lágrimas dos desvalidos. Elas gotejam nas calçadas, nos portais de instituições regiamente servidas, embora não sirvam aos fins pretendidos, não deem o retorno prometido ao pagador de imposto seu serviçal escravizado por falsas juras de discursos pomposos e corrompidos.
Sinta. Sinta sem medo, as lágrimas caem quentes nos pratos sem comida ou em um escuro canto escondido, onde se abrigam os desabrigados e ignorados, transformados em “coisa” em vez de gente por agentes de movimentos intestinos, os elegantes vampiros de Wall Street.
Há festas e cores, músicas e sabores, dólares e amores na Paulista, avenida. Há dores, ausências e constrangimentos nas ruas dos desassistidos arrolados na definição de população sobrevivente.
Vou pedir pincéis e tintas de todas as cores para desenhar nas telas de minha mente ou nas nuvens, ou no chão poeirento novos traços de um porvir condizente com a trajetória de estrelas que cruzam o firmamento, com o germinar de flores no solo, com as promessas da vida que não requer riquezas, mas, sim a beleza da dignidade resplandecente em olhares e/ou sorrisos.