É através da consolidação dessa fórmula imediatista na indústria do cinema voltado para super-heróis que Adão Negro, recém-lançado nos cinemas, extrai seus pontos mais fortes. No começo, realmente parece que o filme é apenas mais uma história introdutória que vai dar errado pela falta de mínima fundamentação, mas à medida que a narrativa avança e começa a se fechar, começa a aparecer uma qualidade que faz falta em produções do gênero hoje em dia, qualidade essa que advém, precisamente, de um nítido cuidado mais elevado com a construção do filme em si.
Tudo começa com Kahndaq em sua era pré-mesopotâmica, terra possuidora de um mineral raríssimo com propriedades especiais. Teth-Adam (Dwayne Johnson) era um homem escravizado que, após uma injustiça, ganhou os poderes de um deus para libertar seu povo da escravidão, mas ao se insubordinar e usar seus poderes para o mal, ele foi colocado em sono profundo por magos, sem previsão de acordar. Cinco mil anos depois, já nos dias atuais, o país Kahndaq vive um regime de ocupação militar, em que sua população reza por uma forma de se libertar quando Isis (Sarah Shahi), o acorda acidentalmente de seu sono de milênios. O grande dilema da história é: será que o anti-herói tem o que é preciso para se tornar o herói de Kahndaq?
Nos quadrinhos da DC comics, Adão Negro é o maior antagonista do herói Shazam; seus poderes são extraídos de deuses do Egito antigo e são eles : Shu (resistência, vigor); Hórus (velocidade, capacidade de voo); Amon (super-força); Zehuti (sabedoria); Aton (poder) e Mehen (coragem); cada um desses poderes se mostra bem definidamente no filme, no entanto, os erros mais imperdoáveis de roteiro no filme decorrem, justamente, da suposição da direção de que a maioria dos espectadores conhece a história de fundo de cada personagem. O maior exemplo disso é a superficialidade do aprofundamento nos arcos individuais de Cyclone (Quintessa Swindell), Esmaga Átomo (Noah Centineo) e Gavião Negro (Aldis Hodge), que apesar de aparições extremamente relevantes para a progressão do longa-metragem não tem suas histórias devidamente mostradas, mesmo que en passant.
É preciso destacar também a fluidez das cenas de luta, repletas de movimento, uma montagem impecável, cores vivas e cenários empolgantes, lembrando muito a dinâmica da montagem das lutas na duologia de jogos Injustice – também da DC Comics; de altíssima qualidade.
Fora isso, nesse jogo de brincar com pautas políticas, o carisma de suas personagens e mostrar o embate de heróis muito poderosos, o filme consegue atingir um patamar de qualidade muito aprazível, em níveis que, atualmente, não se vê todos os dias, mostrando-se uma aposta certa da DC Comics em um anti-herói de peso. O filme está disponível nos cinemas de todo o Brasil, e é uma opção perfeita para ver só ou com a família nesse Domingo.