Faz mais de trinta anos que estive no Japão. Já naquele tempo era comum ver gente na rua andando com boca e nariz protegido por máscara cirúrgica. Perguntei se os mascarados eram profissionais da saúde que teriam esquecido de tirar as máscaras ao sair do trabalho e voltar para casa. O cidadão a quem fiz a pergunta, embora parecendo meio surpreso com minha indagação, respondeu que os mascarados eram gente comum, não necessariamente trabalhadores da saúde; que tinha havido mudança do tempo, o que levou pessoas a ficar resfriadas; e essas, para evitar contaminar os outros, usavam máscaras cirúrgicas que impediriam partículas de espirro a se espalhar pelo ar.
Aquela lição de civilidade dos japoneses nunca me saiu da lembrança. Essa e várias outras. O que nunca pude imaginar é que, décadas à frente, o emprego da máscara em lugares públicos iria tornar-se corriqueiro e até obrigatório em tantos lugares do mundo.
Os caubóis nos filmes de faroeste cobriam boca e nariz com os lenços que traziam ao pescoço quando iam a galope assaltar a diligência. Agiam assim porque eram foras-da-lei que não queriam ser reconhecidos ao cometer seus crimes.
Nos filmes de gângsteres, cobrir o rosto com máscara para impedir o reconhecimento era essencial na hora de assaltar o banco.
Esses exemplos servem de suporte à ideia de que o uso da máscara fora dos hospitais geralmente sempre esteve associado à visão de que o mascarado era bandido; o mocinho estava sempre de cara limpa e barba feita.
Eis que chega 2020 e com ele a Covid 19: o uso da máscara passa a ser medida profilática que se impõe, com adição de acessórios tais como luva descartável e face shield, escudo facial. Como complemento, o uso de bilhões de litros de álcool 70% líquido e em gel, além da repetida lavagem das mãos com água e sabão. A essas novidades no comportamento humano ainda se somam o distanciamento e o isolamento social, abolindo-se aperto de mão, beijo no rosto e abraço. Logo o brasileiríssimo abraço, quem diria? Aquele abraço do Chacrinha e do Simonal substituído por um toque de cotovelo com cotovelo!
Máscaras, escudos faciais, luvas descartáveis, o adeus ao abraço, o distanciamento e isolamento social, a troca das atividades presenciais pelos contatos virtuais, são práticas que vão sendo paulatinamente absorvidas e deixam de causar estranheza na medida em que as pessoas mais se familiarizam com elas. Bom seria que a revisão de certos valores e desvalores viesse a se efetivar.
Em algumas modalidades, o esporte tornou-se atividade em que o espírito de competição, o amor às cores, a galhardia e a nobreza de atitude dos protagonistas deu lugar a um mercantilismo desenfreado, com a movimentação de cifras astronômicas em negociatas urdidas nos bastidores, cujos números superam o produto interno bruto de alguns países mais pobres.
A vida de um futebolista começa cedo e acaba cedo. Muitos são os que tentam a profissionalização; poucos o conseguem; entre esses, um número deveras reduzido obtém salários que lhes asseguram viver bem; e só uma elite reduzidíssima faz fortuna. Assemelha-se ao garimpo: raro é o garimpeiro que consegue “bamburrar”, termo usado para indicar aquele que foi feliz na exploração do minério ao ponto de enriquecer. Os lucros na mineração acabam mesmo nas mãos dos empresários donos das mineradoras.
Rios de dinheiro vindos do esporte são repartidos entre os grandes clubes, as federações e confederações, os vários comitês. Para a arraia miúda o proveito é quase sempre pouco, muitas vezes nenhum.
É tempo de rever valores. Urge que se dê maior importância à educação, à formação de bons profissionais, de cientistas em todas as áreas, de pesquisadores. Que se reveja no mundo inteiro a distribuição de renda. E que a concentração da riqueza da maneira como hoje está posta dê lugar a um cenário onde a vida seja o valor mais elevado. Agora que o mundo respira um pouco mais aliviado com a perspectiva – aberta pela ciência e pelo conhecimento – de se vencer a pandemia com a chegada da anunciada vacina contra o corona vírus, exige-se que o ser humano caminhe no sentido de repensar seus valores, reduzindo a concentração da riqueza e passando a promover uma distribuição mais justa dos recursos de modo a que se possa diminuir a aviltante miséria que tanta desgraça acarreta.
Rui Guilherme
Juiz de Direito e Escritor.