Desde 1999 o acordo da União Europeia com o Mercosul vem patinando, o potencial e o custo de produção de alguns países, principalmente o Brasil assustam os produtores europeus cuja sobrevivência depende de vultosos e polpudos subsídios governamentais. Toda esta resistência é um claro recado para a população dos países integrantes da União Europeia – os consumidores que se lixem. O que ocorre lá é que os países sustentam o agro enquanto aqui o agro sustenta o Brasil.
O G1 publicou, em 02/02/2024, a matéria “Especialistas explicam por que o agronegócio europeu se opõe tão fortemente ao acordo comercial entre União Europeia e Mercosul”, explica de forma clara qual a resistência ao acordo do Mercosul, transcrevo trechos.
“Pelo menos seis países europeus voltaram a registrar nesta sexta-feira (2) atos de protestos de agricultores que exigem mais apoio dos governos ao setor. O epicentro dos protestos é a França, onde a pressão sobre o presidente Emmanuel Macron tem crescido dia após dia. Em especial, por causa do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul. A fronteira da Bélgica com a Holanda bloqueada. Atos na Irlanda, Grécia e Malta. Na França, as vias – assim como o diálogo – só abriram depois que o presidente Emmanuel Macron cedeu às pressões dos agricultores e, mais de uma vez essa semana, deu as tratativas de acordo entre União Europeia e Mercosul como encerradas.
O que vemos são atores de uma disputa comercial. De um lado, países do Mercosul, com um grande agronegócio como protagonista: o Brasil. Do outro, os agricultores contrários ao acordo do bloco com a União Europeia. Com o grupo de ambientalistas como aliados, em uma cena, senão inédita, ao menos rara. Pedro Brites, professor de Relações Internacionais da FGV, explica como pressões internas uniram grupos que, muitas vezes, estão em lados opostos.
‘Você tem as pressões domésticas de cada um desses países, e a França já deu sinais de que não vai abrir mão desse apoio popular interno. Além do que, como essa questão ambiental também ficou vinculada às discussões do acordo, os ambientalistas também estão do lado dos produtores agrícolas, o que normalmente não é uma aliança comum, mas nesse caso, especificamente, há uma oposição muito forte ao acordo’, diz o professor.
Produtores franceses argumentam que precisam se adequar às regras ambientais mais rígidas do que as do Brasil e que um possível acordo seria danoso para os dois lados. Mas Laura Antoniazi, pesquisadora e especialista em agronegócio, diz que as argumentações dos europeus são frágeis. ‘Os ambientalistas argumentam que esse acordo poderia estimular ainda mais o desmatamento, principalmente no Brasil, por conta do avanço da fronteira agrícola. É um argumento que também não se sustenta, porque existem as salvaguardas ambientais no acordo, o Brasil tem área suficiente para expandir sua produção sem desmatamento’, pondera.
A França é o maior produtor agrícola da União Europeia e agricultores europeus são historicamente acostumados a receber apoio por meio de subsídios – dinheiro do governo para ajudar a sustentar a produção.
Dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento, a OCDE, mostram que a ajuda que os produtores da União Europeia recebem do governo equivale a 15% das receitas do setor. No Brasil, é 3,5%. Nos protestos em frente ao Parlamento europeu, produtores rurais reclamam dos recentes aumento de custos – dos combustíveis, por exemplo – e se colocam contra algumas regras de proteção ambiental, que encarecem a terra. Uma pressão sobre os líderes da União Europeia para reduzir taxas do setor e não abrir os portos para o mercado externo. Segundo eles, uma concorrência desleal.
A Associação Brasileira de Proteína Animal calcula que produzir um frango na França custa praticamente duas vezes mais do que no Brasil. Na produção de suínos, uma comparação internacional mostrou que o Brasil tem o menor custo de produção de todos os 15 países pesquisados. Mas a pesquisadora Laura Antoniazi lembra que as mudanças, em caso de assinatura de um acordo, não seriam drásticas.
‘O acordo não iria abrir totalmente o mercado para que os produtos do Brasil, da Argentina, pudessem inundar o mercado europeu. Existiriam cotas, isso ia ser uma coisa gradual. Então, assim, não é que também com o acordo funcionando eles iam perder o mercado totalmente, mas iriam ter essa concorrência de uma maneira maior do que tem hoje”, pontua Laura. As negociações entre os dois blocos econômicos começaram em 1999. Em 2019, os países concluíram a parte comercial do texto, mas, até hoje, o acordo segue no papel.
A história das relações internacionais mostra que a negociação de acordos entre blocos econômicos é pautada por fundamentos técnicos, em conversas que podem levar décadas e interrompidas em um instante por motivos políticos. A possível ameaça do Brasil como grande produtor agrícola mundial, o ano de eleição ao Parlamento europeu, que leva os líderes a ações de grande popularidade e, de forma geral, a tendência dos países a se fecharem diante da crise que começou com a pandemia e se estende com as guerras, pode levar a um retrocesso na construção de uma ponte do Mercosul com a comunidade europeia, dizem os analistas do comércio exterior.
‘A gente está em um momento quase antiglobalização, existem também esses movimentos muito fortes na Europa, principalmente, mais nacionalistas e antiglobalização, antimultilateralismo.
Então está um momento especialmente difícil para acordos e para essa esperança em cooperação comercial de uma maneira geral’, diz Laura.”
Naturalmente trata-se de uma guerra comercial onde os expoentes do ambientalismo, da antiglobalização e do antimultilateralismo andam na contra mão da evolução da humanidade. Na realidade quem sempre sairá perdendo será o consumidor europeu obrigado a pagar preços altíssimos pelos alimentos que consomem.
“Então a menininha disse à ‘fessora’: Meu irmão acha que é uma galinha. A professora respondeu: Oh, Deus do céu! O que é que vocês estão fazendo para ajudar o pobre menino? A menininha respondeu: Nada. Mamãe diz que a gente tá precisando de ovos.”