Pai não pedia, mandava, lá fui agora empreiteiro no setor mineral; dei um jeito meio porco, na vida exportadora do embaixador em não mais pagar estadia de navios no Rio de Janeiro, mas dei. E ali fiquei por dois anos e com contrato na moeda da compra do mineral. Só que passado esse tempo, me parece que um dos diretores do embaixador que não amava muito o sagrado sentimento dos mineiros em parcerias, achou que eu estaria ganhando mais do que eles e que eles próprios assumiriam a operação da mina para o terceiro ano. E realmente estávamos ganhando bem, mas já resolvido os problemas, eles agora focavam na minha parte.
E disso tomei conhecimento da forma mais incrível possível, almoçávamos todos no hotel quando também quis ir ao lavatório, e lá chegando à porta ainda, pude escutar esse diretor convencendo o embaixador a romper o contrato e o fazia em voz alta. Só me coube dizer para minorar o constrangimento do amigo fraterno de meu pai que aquele diretor deveria tratar de tais assuntos no íntimo da sua empresa e não com o “pinto” na mão, pois que não seria eu jamais a causar constrangimento àqueles que faziam parte da história de vida da minha família e que ali estava e fui chamado mais pela confiança da amizade e da lealdade principalmente que pelo aspecto comercial.
Não sai antes de prevenir ao amigo diplomata, são trabalhos diferentes a execução de trabalho de mineração difere e muito da área comercial que vocês atuam no Rio de Janeiro e mais ainda dos balanços que vocês se obrigam a mostrar aos acionistas. Corria o ano, junho de 1974.
Palavras proféticas – nunca mais funcionou.
Eu ainda era um garotão de 30 anos, mas o setor mineral brasileiro também deveria ter escutado isso.
Nem paralisara meus trabalhos na Del’ Rey, me adentra ao escritório o diretor da Alcan do Brasil (canadense). Buscava ele o empreiteiro das causas perdidas pois possuía a mina do morro do Fraga, Bauxita, que até então não conseguiam operar entregando em Saramenha – Ouro Preto.
Outro contrato de três anos em dólar e solicitação de dois meses para ajustar a mina para operação. A primeira providência foi reformar todos os 42km de estradas existentes, inclusive pontes de madeira com mais de 60 metros, um milagre no tempo e à hora com um ano de operação contratual, a Alcan já me pedia para reduzir contra minha vontade a operação para 800 toneladas/mês. O contrato espelhado no da Del’ Rey previa três anos, o segundo renovando por minha vontade e o terceiro por conta deles. Renovei. Do segundo para o terceiro a presidência Alcan como bons descendentes de europeus que são, adorando a própria parte e também a dos outros, avocando assim o direito em fazê-lo, convocou-me a São Paulo. Abastecida que estava, não mais queria contratos em moeda estrangeira, o que não concordei.
A Saramenha fez uma licitação. Durou meses. Acabou-se, parou.
Volto a dizer, mineração, sua explotação (com casamento financeiro nem tanto é capital e diplomas dolarizados), é experiência e conhecimento. Acabou-se a mina e acabou-se a Saramenha.
Mas, para terminar isso tudo, esta mina do Morro do Fraga (Alumina) se inviabilizou em cima de uma formidável jazida de minério de ferro que foi negociada então com a Vale do Rio Doce. E para piorar, um aculturado nem tanto responsável presidente deste país “Honoris- Causa”, vendeu a companhia para administradores também de balancetes e balanços de enriquecimentos a diretores estranhos ao setor.
E agora, cinco anos depois que a “privatizada” companhia Vale do Rio Doce, vindo também jogando rejeitos dessa descomissionada mina do Fraga junto a barragem de Fundão da Samarco, sua sócia, consegue através de muitos agrados e afagos jurídicos se safar de uma merecida punição, criando com esta, uma fictícia empresa de fantasia chamada Renova para postergar, atrasar e não ver suas ações paralisadas pela justiça, como foi a anglo-australiana, solitária na equação do problema. A Vale no foro nacional, enquanto a outra, responde em foro internacional. Veremos…
Hoje conto essa história porque neste exato momento que escrevo, estou ilhado em minha residência na Ilha dos Araújos em Governador Valadares devido à forte inundação da mesma e minha rua, meu quintal e meus cachorros passando em cima de minério de ferro.
A mineração é uma arte milenar do homem, o próprio minério de ferro foi conhecido pelos Hititas acabando com a hegemonia do bronze na história do homem. Isto não é para quem sabe só ganhar dinheiro, isto é para quem sabe tirar e produzir da terra com a maior responsabilidade. Minérios, muito além de uma via de riqueza, tem que cumprir intrínseca função social e humana. O “ouro” e os homens andam juntos a milênios, e não é à toa.
É bom, mesmo depois de velho, que o Sr. Fernando Henrique saiba antes de morrer, que o gigantismo desta empresa também tornada usuária de dois corredores de exportações rigorosos (ferrovias) os quais tem em comissão, um tirado a Percival Faqu’ar e o outro do projeto Carajás, do bolso do contribuinte brasileiro, que pagou 18 bilhões de dólares, não poderia jamais ter sido vendida como o foi por seu gigantismo, e por ter recebido facilidades públicas, meio aos outros do setor, e cujo comportamento hoje, repito, enriquecimento único de seus diretores e acionistas majoritários , tem beirado um pouco a astúcia maligna.
Ainda é tempo de se reagir a estas coisas, e possível moldar os caminhos desta empresa aí na Amazônia e no Pará, cujo somatório de degradação de todos os garimpos reunidos não chega aos pés da sua devastação.
O minerador não é um predador e sim um artífice da natureza para o homem. E ATÉ em SUA CAÇA ELE SE TORNA FORMIDAVEL.
P.s Gov. Valadares 440km distância dos eventos, cinco anos pós- águas, nas ruas uma artificial mina de ferro… a ex proprietária não quer vir busca-lo.