O ex-deputado e hoje delegado de policia federal Reátegui decidiu inverter a lógica tradicional da exploração de recursos naturais no Brasil. Em ofício enviado à Petrobras, ele propõe que os investimentos em saúde pública no Amapá não esperem os impactos — comecem antes deles.
A iniciativa, revelada por meio de release de sua assessoria e já repercutindo nos bastidores políticos, antecipa um debate raro no país: a criação de uma compensação socioambiental prévia, vinculando diretamente a exploração de petróleo na costa amapaense ao financiamento imediato da saúde pública.
A lógica é direta — e politicamente sensível:
se a riqueza sai, parte dela precisa voltar. E precisa voltar agora.
A proposta prevê a criação de um programa estruturado de investimentos em saúde, com foco em duas das maiores estruturas já implantadas no estado: o Hospital de Amor e o Hospital Universitário da UNIFAP — ambos responsáveis por atendimento gratuito a toda a população do Amapá.
Mais do que ampliar estruturas, o plano mira resolver gargalos concretos. No Hospital de Amor — antigo Hospital de Câncer de Barretos — a proposta inclui a implantação de quimioterapia e o fortalecimento da radioterapia, fechando o ciclo completo do tratamento oncológico dentro do próprio estado.
A unidade, concebida com participação de Reátegui, já nasceu com um modelo que foge do padrão tradicional: uma base fixa em Macapá combinada com uma unidade móvel que percorre todos os municípios, levando exames e diagnóstico precoce à população. O resultado prático é conhecido — detecção em estágios iniciais e aumento real das chances de cura, especialmente entre pacientes que antes não tinham acesso ao sistema.
No caso do hospital universitário, o desafio é outro: fazer funcionar plenamente o que já existe. Com estrutura de grande porte, a unidade teve papel relevante durante a pandemia de Covid-19, contribuindo para a melhora dos indicadores de mortalidade no estado. Ainda assim, hoje opera com baixa ocupação.
O histórico do projeto reforça o protagonismo político apontado no release. Reátegui coordenou a bancada federal responsável por viabilizar a obra e acompanhou sua execução do início à conclusão, consolidando uma das maiores estruturas hospitalares da região Norte. Agora, a proposta é articular Petrobras, Universidade Federal do Amapá e EBSERH para transformar a estrutura em um centro efetivo de atendimento, com capacidade plenamente utilizada.
O documento também resgata um alerta histórico que pesa sobre o debate: a exploração do manganês no estado, que deixou passivos ambientais e impactos à saúde da população, especialmente em Santana. A mensagem é clara — o Amapá não pode repetir o modelo em que a riqueza sai e os problemas ficam.
Ao antecipar a cobrança por contrapartidas e direcioná-las diretamente para a saúde pública, a proposta se apresenta como uma inflexão no debate sobre desenvolvimento na região. Mais do que discurso, tenta estabelecer um vínculo concreto entre exploração econômica e melhoria imediata das condições de vida da população.
Nos bastidores, a leitura é de que o movimento reforça uma marca política específica: substituir a lógica da promessa pela da entrega. Em vez de reagir a problemas, a estratégia é agir antes — e transformar oportunidade econômica em política pública efetiva.
Se prosperar, a proposta não apenas redefine o papel das compensações socioambientais no estado, mas também reposiciona a saúde pública como prioridade central no debate sobre o futuro econômico do Amapá.

