O espaço aéreo se tornou uma das principais vulnerabilidades do sistema penitenciário do Amapá. Facções criminosas passaram a utilizar drones para tentar transportar drogas, celulares, carregadores, armas e outros materiais para dentro do Instituto de Administração Penitenciária do Amapá (Iapen).
Entre janeiro e agosto deste ano, 12 drones foram interceptados enquanto sobrevoavam a unidade. No mesmo período, foram registradas 21 ocorrências relacionadas à tentativa de entrada de materiais ilícitos por meio desses equipamentos.
A ofensiva das organizações criminosas obrigou o sistema penitenciário a investir em tecnologia e criar estratégias específicas para detectar e impedir os voos clandestinos.
Drones transportam até alimentos e bebidas
Os equipamentos não são utilizados apenas para transportar celulares e drogas. Em uma das ocorrências registradas, criminosos tentaram enviar para dentro do presídio picanha, açaí e uísque.
A carne foi acondicionada em embalagens plásticas, enquanto as bebidas foram colocadas em garrafas, incluindo aproximadamente 500 mililitros de uísque.
Apesar de inusitada, a ocorrência revela a variedade de materiais que podem ser transportados pelos equipamentos e lançados dentro da unidade.
Entre as apreensões realizadas no período estão 22 relógios inteligentes, 11 telefones celulares, 11 chips de telefonia móvel, 21 carregadores por indução e 12 carregadores de parede.
Espaço aéreo é considerado ponto vulnerável
A preocupação com o uso de drones já havia sido destacada pelo Iapen durante a 11ª fase da Operação Mute, realizada em maio. Na ocasião, o instituto informou que os equipamentos seriam responsáveis por aproximadamente 80% da entrada de materiais ilícitos na unidade.
Segundo o diretor-presidente do Iapen, Emerson Nascimento, a tecnologia utilizada pelos criminosos é cada vez mais sofisticada, dificultando a identificação dos equipamentos.
“A gente sabe que os drones utilizados por eles têm tecnologia bastante avançada, o que gera grande preocupação em relação à entrada de ilícitos pela via aérea”, afirmou.
De acordo com o diretor, os equipamentos são utilizados principalmente para transportar celulares, smartwatches e carregadores, incluindo modelos tradicionais e por indução.
O custo dos drones utilizados nas ações criminosas pode chegar a cerca de R$ 40 mil. Dentro do sistema penitenciário, um celular pode alcançar valores de até R$ 10 mil, segundo o Iapen.
Equipamentos são adaptados para transportar cargas
As investigações apontam que os criminosos também modificam os drones para aumentar a capacidade de transporte. Alguns aparelhos recebem lançadores, garras e outros dispositivos capazes de carregar e soltar objetos durante o voo.
A operação é considerada difícil de ser detectada visualmente. Alguns equipamentos conseguem atingir aproximadamente 200 metros de altura, ficando fora do campo de visão e praticamente inaudíveis para quem está no solo.
Em determinados casos, os agentes só percebem a tentativa quando o material é lançado e cai dentro da unidade.
Para enfrentar esse tipo de ação, a Divisão Especializada em Operações com Drone (DEOD) utiliza equipamentos capazes de localizar os aparelhos à distância.
A estratégia adotada pelo sistema penitenciário é utilizar a própria tecnologia empregada pelas organizações criminosas para identificar e interceptar os drones.
Operações também miram a logística fora do presídio
As ações de combate não se limitam ao espaço aéreo. As forças de segurança também passaram a investigar a logística utilizada para adquirir os equipamentos e transportar os materiais até pontos próximos ao presídio.
Em maio, após cerca de dois meses de investigação, uma ação integrada interceptou um veículo que transportava materiais que seriam levados ao Iapen. No carro foram encontrados quatro drones e equipamentos utilizados para lançar objetos dentro da unidade.
Segundo a investigação, os suspeitos integravam uma rede estruturada de distribuição. Cada integrante teria uma função específica, desde a aquisição dos equipamentos até a entrega dos materiais.
A apuração apontou ainda que os drones eram comprados fora do Amapá e posteriormente levados para serem utilizados nas ações criminosas. Quatro pessoas foram presas durante a operação.
Estratégia também envolve isolamento de lideranças
Outra medida adotada pelo Iapen foi a transferência de lideranças criminosas para a Unidade de Segurança Máxima José Eder. A estratégia busca reduzir a comunicação entre integrantes de organizações criminosas e dificultar a articulação de crimes a partir do interior do sistema penitenciário.
Segundo as autoridades, investigações já apontaram que crimes praticados fora dos presídios, incluindo golpes virtuais, podem ser ordenados ou coordenados por pessoas que estão encarceradas.
Para o diretor-presidente do Iapen, o avanço das tecnologias utilizadas pelas facções exige uma resposta permanente das forças de segurança.
“Fechamos algumas barreiras, mas o crime passa 25 horas do dia que tem 24 tentando burlar a segurança. Por isso, passaram a usar essa tecnologia”, afirmou Emerson Nascimento.
Arma e faca já foram lançadas por drone
A utilização dos equipamentos ganhou um novo capítulo em uma ocorrência registrada recentemente na Penitenciária Masculina (PEM). Um drone lançou dois pacotes para dentro da unidade.
Dentro das embalagens foram encontrados uma pistola, uma faca artesanal, dois smartwatches, uma capa de celular, cinco pacotes de fumo e quatro embalagens de chiclete.
O caso reforçou a preocupação das autoridades com o potencial dos drones para transportar não apenas equipamentos eletrônicos e drogas, mas também objetos capazes de aumentar o risco de violência dentro dos presídios.
Com a intensificação das tentativas de entrada de materiais pelo espaço aéreo, o Iapen mantém o monitoramento e as ações de interceptação. A estratégia envolve tecnologia, investigação e operações para identificar tanto quem pilota os drones quanto os responsáveis pela organização da logística utilizada para fazer os materiais chegarem até as unidades prisionais.

