Para quem ainda não pisou naquelas terras, a imensidão amazônica soa distante e envolta em mistérios e lendas.
Caminhar no chão da Floresta revela mais do que o óbvio. Em longos trechos das trilhas, a sombra das imensas árvores não deixa o sol tocar o solo. Os gritos e cantos vêm de todos os lados, produzidos por vários animais. A água doce transborda e se revela, tanto quanto a folhagem exuberante e os troncos que parecem não ter fim.
Inegável a energia vital ali presente. Para onde se olha ou se tenta ver – dentro da selva não se vê longe – a opressão da gigantesca floresta nos revela uma força muito além do imaginável.
O solo está sempre coberto por raízes e folhas em decomposição. Contudo, ao se afastar a cobertura vegetal, em grande parte vemos solo arenoso e pobre. Há distinção, portanto, entre a fartura opressora da mata e o pobre solo da superfície.
Tal qual disfarce produzido pela natureza, a fina camada arenosa parece esconder o rico subsolo, com Ouro, Nióbio, Manganês, Ferro e muito do que se conhece.
A superfície expõe madeiras nobres e toda sorte de seres vivos, com infinita biodiversidade. Muito além disso, a água jorra, abre caminhos, enche de vida a imensa floresta, serve de meio de transporte para pessoas, dissipa sementes e frutos e é habitat para espécies ímpares.
O Rio Amazonas é esplendoroso. Se parece grande, olhado das margens, só se revela em sua grandeza, quando navegamos por suas águas, enquanto as horas passam. O gigante serpenteia, levando para o mar a imensa quantidade de água doce, mormente nas cheias, quando o nível pode subir mais de dez (10) metros. Surpreendente!
Se o Rio Nilo sustentou a agricultura no Crescente Fértil e a rica civilização da região e do Egito, o Rio Amazonas e os seus tributários – já, por si, imensos rios, como o Juruá, o Tapajós, o Negro, etc – sustentam a Amazônia Legal, imensa região muito além do Estado do Amazonas
e que corresponde a 2/3 (dois terços) do território brasileiro, compreendendo os Estados do Mato Grosso, Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e parte do Maranhão.
Já estão reveladas e exploradas imensas porções do território no Sudeste, Nordeste, Centro Oeste e Sul. Comparado a esse conjunto, a Amazônia Legal ainda é cercada de pretensões e atrai a cobiça internacional sobre o que imaginamos conhecer e sobre contextos que não chegam ao povo.
Para começar, é como se houvesse dois (2) rios, um que chamamos de Rio Amazonas e outro que corre abaixo, subterrâneo. O mundo sabe que precisa de água doce pura e a temos em quantidade. Vários países e regiões passam por problemas, em decorrência da poluição das suas águas, enquanto nós a temos em abundância. Isso não passa despercebido…
Já inventamos borracha sintética e produtos plásticos, mas ainda não inventamos substituto para a água doce potável.
Cada vez mais, os olhares do mundo se voltam para a nossa Região Amazônica, com discursos em torno da proteção, do desmatamento e da preservação, incluindo o fluxo de recursos financeiros para tal propósito. Curioso é que pretendam doar ou emprestar recursos, enquanto transformam em carvão as suas árvores de florestas milenares e mantém em uso as instáveis e perigosas usinas nucleares.
Mesmo com avançada legislação ambiental, somos criticados. Apesar do tamanho das nossas áreas de proteção e reservas, somos questionados.
A grilagem de terras públicas não é fenômeno pequeno ou desprezável, pois em torno do fenômeno está o desmatamento e a intervenção nas matas e solo, revelando riquezas no segredo das ações dos infiltrados e disfarçados, como se operação gigantesca estivesse em curso, com pessoal e tecnologia sendo levado para o local.
Há organizações internacionais com vários perfis, como as ONGS – Organizações Não Governamentais e, paradoxo, as ONGOGs (Organizações Não Governamentais controladas por um Governo), que realizam estudos, postulam regras e prescrevem comportamentos.
Uma curiosidade nos assola, na medida em que somos passivos a receber tanta influência e pouco ativos a influenciar – direta ou indiretamente – as políticas e ações a ser realizadas no soberano território de outros países.
Por qual motivo respeitamos tanto a autodeterminação dos povos e as suas ações sobre as suas matas, florestas, rios, mares e lagos, bem como sobre as suas fontes de poluição química e industrial, enquanto nos sujeitamos a esse verdadeiro assédio estrangeiro?
Se o Dia D, com o desembarque das tropas aliadas, na Normandia, foi imensa operação, decerto os interesses estrangeiros envolvem, aqui, algo tão imenso quanto.
Do Projeto Grandes Lagos aos eventos envolvendo o Projeto Jari, a descoberta de Carajás e outros menos chamativos, pilastras não nacionais vão se consolidando na região.
Não vemos – ou não queremos ver – o tamanho do jogo e focamos apenas nos aspectos que conseguimos compreender.
Fomos muito proativos ao frear a cobiça estrangeira sobre a Região Amazônica, quando, no Século 19, criamos a Companhia de Navegação do Amazonas, para reduzir a livre circulação de naves estrangeiras. Também obramos para resistir à forte influência da Doutrina Monroe que, em resumo, deixa as américas sob influência americana, inclusive com os pensamentos de Mathew Maury, que considerava imensas as riquezas ao longo do Amazonas e sugeriu que os americanos enviassem para a Região parte da população liberta, após a sua Guerra Civil.
Além disso, no início do Século 20, Percival Farquhar buscou o monopólio das minas de ferro e teve negócios do Amapá ao Sul do país, explorando madeira, borracha, minérios, frigoríficos e portos.
Logo após, a Fordlândia surgia, gozando de isenção dos impostos, presentes e futuros, por 50 anos. Ali se podia ter segurança própria, pesquisar minérios, fundar bancos e criar escolas – até sem a obrigação de se falar a língua portuguesa.
Missões religiosas também penetraram nas regiões das florestas, tanto na Amazônia brasileira quanto noutras sul-americanas, com os americanos Gerard Colby e Charlotte Dennett registrando que havia projetos com “inspiração menos espiritual: a invasão americana da Nicarágua” e outros onde missões “assumiram o papel de vanguarda para as empresas petrolíferas”.
Já nos anos 1960, a Teoria do Cerco sobre a Amazônia falava na aquisição de milhões de hectares, muitos fazendo um “laço” em torno e acima do Paralelo 14.
De outras paragens também chegam interesses sobre a região, inclusive a moderna intenção de se fazer o corredor Triplo A que, sob o argumento ecológico, deve servir à ingerência estrangeira e à flexibilização da Soberania, na região.
Cada uma dessas situações implica no sugamento contínuo e permanente da nossa Amazônia, nos vários aspectos que isso possa representar.
Quem recebe dinheiro por empréstimo, acaba se tornando servo e dependente de quem empresta, ensinamento que, inclusive, consta na Bíblia. Assim, receber dinheiro, sob qualquer rubrica (fundos, doação, etc.), no mínimo, implica em ter de dar satisfação sobre os destinos dos recursos. Daí, para mais.
A sedução do dinheiro não pode cegar a nossa razão, a ponto de nos fazer aceitar algo que nos custará muito caro, adiante.
Parece que não aprendemos todas as lições que a História nos lega ou não queremos mesmo aprender (pois, pode dar trabalho ter de reagir), preferindo rezar na cartilha alheia, que domina os jogos de dinheiro e poder.