Morador em Ipanema ao levar-me a Niterói para tomar o buzu, passamos frente a pedra do Arpoador onde estava grafitado em enormes letras brancas: YANK GO HOME. Como estava triste ou puto na solidão sentida sei lá, nada perguntei ao padrinho do instante, mas deveria tê-lo feito.
Adulto, já com algum direito individual até ao ócio, aconteceu oportunidade de assistir cenas de um capítulo da minissérie global, Mad Maria. Rede Globo, também hoje, com personalidade muito diferente de seu fundador. Conseguia então, manter um olho na TV e outro nas cartas do baralho, em joguinho, onde apanhava qual cachorro assanhado. No jogo já estava desacreditado mesmo, mas na tal mini serie, era eu que não acreditava no que assistia.
A história toda baseada em fato real, no período da estruturação da ferrovia Madeira – Mamoré. Tal caminho de ferro, e sua construção, fizeram parte de um acordo Brasil / Bolívia, como compensatória, por tomarmos deles, o que é hoje o Estado do Acre.
Ela, através de seus trilhos, escoaria a borracha do país vizinho, vadeando as famosas cachoeiras do rio Madre de Diós/ Madeira.
Na década de 70 ainda pude andar em seus trens. Depois, quando desativada, usávamos anos mais tarde, para atividade do garimpo amazônico em Rondônia, a péssima rodovia, na qual fora transformado seu leito.
De um jeito ou outro aquilo tudo, foi realização de homens gigantes. Verdadeiros titãs. Foi um respeitável compromisso cumprido, com sacrifícios e a segurança, de quem acreditava muito, no país. Entretanto, em tempos ditos modernos, a televisão, com “seu” Benedito Rui Barbosa, transformara a epopeia em bagunça geral, regida a corrupções, violências e muita fornicação.
Bem incrédulo, rebusquei em empoeiradas memórias, o que sabia a respeito da estrada de ferro e mais ainda, sobre Percival Facquar. Quando estudante na Fundação, tivera oportunidade de ler sobre ele. Homem bem diferente, desse ordinário e cruel “bandido”, que aparecia fazendo graça, nas graças da tela. A noção guardada foi de verdadeiro homem, como poucos nos dias de hoje. Mais brasileiro que muitos nativos.
Um dos maiores empresários norte-americanos ao findar o século IX, e começo do XX. Seus interesses iam de ferrovias na América Central, ferrovia transiberiana (russa), uma das maiores do mundo, navegações, geração de energia, siderurgias e minerações. No Brasil, nos mais diferentes lugares, causou até insurreição do Contestado sulista com o seu projeto ferroviário. A todo canto estavam sempre obras e vestígios daquele titã. Dono da Light, tirou do Rio, capital federal, os lampiões noturnos e lhe deu a eletricidade. Só não conseguiu iluminar ideias e políticas nacionais.
Tantas e grandes eram as realizações, que fica difícil imaginar, terem sido possíveis existirem numa época, em que nem de avião se andava, as comunicações tão lentas quanto as caravelas, e sequer telefone ajudava. Lembro – me, ao ler sobre ele, que minha grande curiosidade, foi saber quantos anos ele vivera. Queria mesmo entender, como foi que teve tempo, para exibir sucesso pessoal daquele tamanho, espalhado pelo mundo e principalmente como o controlava. Seus prepostos deviam respeitá-lo muito, caso em contrario, na exibida dimensão econômica, o roubariam por demais. Só mesmo um firme gênio e querido.
Não devia ser nenhum santo, principalmente por ter que lidar com políticos brasileiros, de época tão colonial e elitizada, onde a corrupção era endêmica. Mas, daí a ser homem, capaz de seqüestrar, manter em cárcere privado um ser humano, ainda sendo ela, amásia de ministro, vai-se para muito perto da arriscada calúnia, infâmia, tornando tudo inverossímil. A palavra “Mad”, na língua inglesa significa louco, loucura, doido, desvairado e tudo que possa ser ligado a insanidade. É mais ou menos por aí, que também vai o xenófobo autor noveleiro, de arcaicos princípios pessoais, que deveriam estar enterrados, junto ao hoje aposentado socialismo.
Minha cidade, Governador Valadares é quem carrega o peso de ligação ao famoso nome, na Fundação Percival Facquar, mantenedora da Univale, nossa boa universidade que abrigou/a milhares de jovens, e cujo nome aparecerá em seus diplomas para o resto de sua vida, mesmo que a divulgação de tais canalhices na televisão, possam vir a causar alguma dúvida. Mas, tenho comigo a mais absoluta certeza, que não há o que se temer e que nunca haverá.
Percival foi homem para justo merecimento, vivendo bem de acordo à sua época, principalmente para nossa terra, com Madeira-Mamoré, a sua ferrovia Vitória Minas, a sua Itabira Iron, que cedeu ao nosso governo para os esforços de guerra tornando se Cia. Vale do Rio Doce e que a política nacional sem nenhum respeito a ninguém, por corrupção, irresponsabilidade, ranço, receio e medo do poder, deserdou e vendeu.
Engraçado, Facquar, Daniel Ludwig, outro Titã, junto a trabalhadores na Amazônia, formam/ram um bando no Brasil, que não vale porra nenhuma … mas Lampião, traficantes, comandos, bicheiros, o falecido Lazaro, políticos, estes sim, são porretas…
Porém, justa, a história sempre guardará merecidos lugares para quem deixa legados e seus valores como referência.
P.s: A despeito da família Guinle, pichadores da época, Percival morreu no Brasil em um modesto apartamento, em que viveu, ali no Botafogo-RJ