Não existe Democracia sem liberdade.
A onda que levou democracias ao mundo moderno surgiu após a Revolução Francesa, que desfez monarquias absolutistas. Os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade se conectaram à Democracia moderna, que precisa da liberdade individual e de opinião, tanto quanto da liberdade de voto para a eleição dos representantes do povo.
Se a liberdade individual for travada, o ideal democrático fica ferido. A discordância, a opinião, a crítica, a ironia, a reclamação, o protesto e o riso integram um conjunto não exaustivo de manifestações do indivíduo na sociedade.
Os que combateram o Regime Militar lutaram por isso e, ao longo da história, muitos tiveram as mesmas batalhas, em frentes distintas, como Gandhi (contra o domínio inglês, na Índia) e Mandela (na África do Sul).
Aliás, o poder dominante calou O maior de todos, há cerca de 2 mil anos…
Não se pode silenciar uma voz, sem causar danos à sociedade: algo próximo ao “mexeu com um, mexeu com todos”. Ao se censurar e calar um, faz-se mais do que oprimir o som, pois mata-se a alma, vampiriza-se a essência e afoga-se o sopro de vida divino que há em cada um de nós.
Como ser intolerante com a divergência, com a liberdade de opinião? Quem tem razão em algo pode não ter noutra questão e vice-versa. Já houve quem desligasse microfones, para que outros não falassem, assim como já se publicou jornais com páginas em branco, onde a censura se manifestava. Esquecemos disso, do quanto doía, do quanto se lutou pelo fim da censura?
Divergência? Acaso a voz de Gandhi e tantos não eram as da minoria divergente que foi oprimida e que depois foi reconhecida, valorizada e é, ainda hoje, altamente influente no mundo, quando ninguém se lembra sequer de um dos seus opressores?
Até parece que se acabou o tempo da subversão pelo riso, como ocorria no Brasil, nos tempos da Ditadura. A tarja da censura marcou o nosso tempo, mas não impediu as críticas e ironias que eram levadas pelo vento, como herança cultural recebida das antigas cantigas portuguesas e exemplo de manifestação da cultura popular, banhada a riso e alegria, nas piadas e versos que zombavam do contexto, como contundente crítica social.
Por outro lado, quem não se lembra do Pasquim e toda a sua representatividade, no período? Dizia-se que Vargas, mesmo no regime ditatorial, se divertia no teatro com peças contra o seu governo e charges que o retratavam. Onde perdemos o fair play? Não é de hoje, contudo, essa postura nas quais as massas amassam a individualidade e, ameaçando essa, atingem a espinha dorsal da Democracia.
Mais de 400 anos se passaram, até que a Igreja Católica absolvesse Giordano Bruno, das acusações que o levaram às fogueiras da Inquisição. Galileu também sofreu com isso, quando indicou que o Sol era o centro do nosso Sistema Solar e que a Terra e os demais planetas se moviam ao seu redor.
Com esses exemplos, fica claro que o “patrulhamento” do pensamento e das opiniões e ideologias não é fenômeno dos nossos dias. A política do “cancelamento” nas redes sociais acaba sendo uma nova variante do mesmo modelo de outrora, com uma característica curiosa, já que são entidades privadas as mantenedoras de um tipo de “poder” que é absolutamente fora do controle estatal e que, por mecanismos de software e, agora, ainda mais por inaugurais sistemas inteligência artificial, excluem ou bloqueiam mensagens usuários, sem direito à defesa e ao contraditório.
É bom se observar que, embora o Poder tradicional, exercido por governantes, pareça estar abalado por essas estruturas poderosas que integram as redes sociais, isso não corresponde exatamente ao fato gerador remoto, da visão da população sobre a falta de legitimidade de ações governamentais, da falta de interesse na política, na descrença em relação às promessas vãs e algumas ações que não produzem os resultados esperados. O vácuo se formou e foi ocupado por quem, de algum modo, trouxe conectividade, facilidade de comunicação (quando, há pouco tempo, tínhamos de usar fichas de orelhão para falar com alguém, pela falta de oferta de linhas, etc. Alguém se lembra disso?).
Apesar da nossa realidade, tão farta em ofertas de serviços afins, só agora se fala que o YouTube tomou força como veículo de liberdade de expressão, na Coreia do Sul, sendo conveniente registrar que essa realidade é algo impensável, ainda, na China (onde consta estarem censurados Twitter, Facebook e Google) e na Coréia do Norte (de um ou outro, só versão local, deles – não a global). No intuito de buscar retomada desse espaço, alguns alvitram limitar a atividade das redes e sites Tarde demais, pois a questão envolve duas facetas da mesma moeda: essa nuance de poder já migrou e o descrédito dos governantes e dos governos já é uma realidade que está no inconsciente coletivo. Usar do remédio amargo de pretender limitar e aleijar quem oferece essas facilidades poderá corresponder à expressão popular de se tirar o “sofá da sala”.
O poder não é estanque, imutável, tangível e controlável, absolutamente, embora seja, essencialmente, ferramenta para se controlar os outros. Uma pitada de ingrediente a mais ou a menos pode fazer grande diferença no resultado final.
Parece haver a sensação de que a opinião barulhenta de uma maioria significaria a voz da razão e teria de ser consumida e absorvida por todos. O que parece ser a verdade “mais verdadeira” pode erodir como castelo de cartas. O que era versão mentirosa pode ser reconhecido como verdadeira. A lógica dos processos nos tribunais é mais ou menos essa, na medida em que a tese é contestada pela antítese e as decisões podem ser revistas e modificadas nas várias instâncias do Sistema Jurídico, até a solução final, mesmo assim, em alguns casos, passível de correção por Ação Rescisória.
O pedido de desculpas e de perdão também é algo fundamental no seio social e na psicologia, quando reconhecemos que estamos errados, embora sempre lutemos para estar certos.
O negacionismo não é privilégio de um ou outro grupo, porquanto há quem não se incomode com os mortos em decorrência dos regimes de esquerda nos países onde a essa ditadura impera, parecendo só ver desse regime quando vem pela via da direita: algo como chamar de golpe ou revolução conforme o ponto de vista, convicção pessoal ou diagnóstico decorrente da aparente força prevalecente no momento em que ocorra. A realidade corrige certas aparências, quando se sabe que JK votou em Castelo Branco para presidente e, depois, foi cassado, o mesmo ocorrendo, depois, com Carlos Lacerda.
Os romanos pregavam “viver honestamente e não prejudicar a ninguém” e essa máxima é interessante como regra de bom convívio social, ainda hoje. Antes de divulgar algo, temos de reconhecer a autoria e a fonte, com fazíamos quando nos contavam que alguém fez algo ou qualquer fofoca. Quem falou, ouviu de quem, como você sabe? De qualquer modo, fofocas sempre ocorreram e sempre ocorrerão. A humanidade adora uma fofoca, um disse-me-disse e coisas assim. Os veículos apenas nos servem, não falam por nós. Talvez a culpa recaia mesmo sobre o tempo, que nos falta mais e mais, para checar fontes, nesse mundo hiperconectado, onde cada segundo em frente às telas parece corresponder a menos um segundo de vida realmente vivida.