Vivemos era curiosa. Por um lado, ganhamos voz e as nossas ideias, desejos, ansiedades e frustrações são compartilhados com todos, pelas redes sociais e aplicativos de celular.
Parece que não há mais reservas ou intimidade e tudo é objeto de divulgação ampla, inclusive questões domésticas e particularidades de relacionamentos, em alguns casos até distorcendo a lógica dos processos judiciais nos quais se protege a privacidade.
Valores que fizeram parte da evolução humana foram repentinamente conceituados como ultrapassados, em alguns casos com ruptura conceitual e a sensação de que não vivenciamos o desenvolvimento natural de certos dos seus elementos estruturantes. Fatos, apenas fatos. Noutro prisma, a bela ideia da “liberdade, igualdade e fraternidade” rompeu com o Antigo Regime absolutista e nos trouxe uma nova realidade, com a universalização dos direitos sociais e das liberdades individuais.
Contudo, noutros momentos, foram lançadas ideias desconectadas do mundo real e, no intuito de as transformar em realidade, tiveram de ser impostas pela força, com ideologias dominadoras e ações autocratas ou pretensões econômicas que se sobrepuseram à política e nos legaram contextos forçados, como os acordos de Bretton Woods de 1944, lançando as bases do sistema monetário internacional e, como desdobramento, derivativos, como a globalização.
Traço característico de teorias, utopias e ideias subitamente surgidas é o conflito aparente entre o sentimentalismo que as envolve. Um certo romantismo ou ideal emotivo acaba dando-lhes cor e sabor, muito além das suas insípidas formações estruturais. Parece que, assim, se tornam mais palatáveis, na medida em que as promessas e metas subjetivas nos cativam, embora a realidade, com o seu tríceps brutal, nos apresente o oposto.
Essa afetividade nos envolve e contamina os sentidos da nossa capacidade cognitiva. Deixamos de lado a lógica e o bom senso e agimos por paixões.
O verniz emocional contamina a lógica dos sentidos e cria emaranhado na nossa compreensão, nos levando a cair no lugar comum quando deveríamos ser capazes de fazer análise crítica, com a razão pura.
Deixamos de ver o óbvio e nos perdemos nos adornos superficiais, no brilho cativante do dourado que cobre a superfície fria e metálica de estruturas racionais, preferindo não ver a verdade nua e crua, para nos perder em frases de efeito e boas intenções.
Parece mesmo que a primeira impressão é a que fica e por isso temos sido levados a reagir sentimentalmente às proposições, para que, numa receita nada racional, se justifique de algum modo e nos mantenha presos àquela emoção original, tão boa, cativante e inspiradora.
Quando a realidade cobra a conta e apresenta os resultados distintos da emoção inicial, o nosso apego àquela crença nos faz manter a posição e a não dar o braço a torcer.
Ademais, somos as nossas ideias e alimentamos a nossa individualidade pelo que acreditamos ser, embora, paradoxalmente, tenhamos certa dependência da aceitação por outros.
Isso nega, em parte, a lógica da individualidade e da igualdade de todos, que nos foi trazida pela Revolução Francesa, se considerarmos que a liberdade individual tem essa altivez de colocar o ser como dono e senhor dos seus destinos e não como alguém que deva obrigatoriamente integrar um coletivo para se sentir alguém.
Mais: as nossas ideias devem servir como sendo abstratas e dissociadas da realidade ou quando fazem real sentido e se encaixam num modelo verdadeiro, trazendo melhorias ao mundo e ao indivíduo?
A essência das ideias é que se provem sem forçar e sirvam para construir e servir e, como o certo e o errado e a verdade e a mentira, não sejam conceitos de ocasião ou de emprego por conveniência. Uma situação não é mais justa do que outra, apenas por nos ser conveniente.
Isso não é adequado ao modelo social ou à lógica individual. Isso é interesse, vaidade, orgulho ou manipulação: o que foge completamente ao sentido empírico da realização e à lógica de causa e efeito entre uma ideia e as suas consequências.
A inversão de valores e a distorção da realidade não enchem a barriga de ninguém e nem criam empregos, moradia, segurança ou tetos para se morar.
A descrença na política contamina boa parte do mundo e leva eleitores a questionar o exercício do poder por governantes e a desacreditar o processo eleitoral e o sistema de justiça, soando como o desengano do moribundo, no leito hospitalar, quando a mais pura esperança de melhoria e boas intenções dos presentes se confronta com a dura realidade.
É bom relembrar que Aristóteles falava que os melhores cidadãos deveriam governar, pensamento que já traz consigo um elemento distinguidor e nos faz indagar sobre quem seriam os melhores, sem embargo de se indagar que o melhor talvez não correspondesse à visão – mais emocional – da coletividade e da opinião pública.
A nossa compreensão é facilitada pela sua ideia de que as pessoas virtuosas não almejam a sua felicidade – diríamos fútil, pomposa – e sim a realização, ao que acrescentaríamos a edificação, a melhoria e a contribuição para o desenvolvimento de um mundo melhor.
Como se vê, em sociedade, a liberdade não nega os correlatos deveres do seu exercício e a constituição e as leis são o melhor balizamento para que as ideias não tenham consequências indesejadas pelo sistema histórico-jurídico-político-social, ficando o alerta de que o valorizado hoje possa ser diverso do passado e do futuro, não sendo, por isso, melhor ou pior, ficando óbvio que somos consumidores de uma época e extremamente influenciados a seguir a luz que as vozes mais sedutoras nos lancem, acreditando nas mensagens propagadas como se estas fossem as notas musicais tocadas pelo Flautista de Hamelin.
As ideias delirantes podem ser maravilhosamente sedutoras e, por mais que estejam dissociadas do mundo real, nele é que produzirão os seus efeitos, algumas vezes com nefastos resultados, interferindo nas relações econômicas, taxas de juros, criação de empregos, fomento da indústria, exportações, câmbio e valor da moeda e ocasionando guerras e outros conflitos, sendo que, no final, os governantes não lutarão nos campos de batalha da vida real ou arcarão com as consequências que legarão.