Rita Lee, sabiamente, não travou uma luta contra suas imperfeições. Docemente brincou com elas como uma criança que se lambuza com seu alimento. Todas os seus desbordos com o comportamento ensinado e esperado pela moral vigente eram justificados com uma pedagogia de quem realmente entende o ser humano. Usando seu melhor talento, que a diferenciava dos comuns dos mortais, ela cantava, sem agredir, seu comportamento rebelde, numa sutileza divina, lançando o perfume da ação que inebriava seus seguidores. Não precisava negar nem afirmar suas imperfeições, apenas cogitava uma aceitação, num mundo que via dividido entre o bem e mal, sem possibilidade de conciliação.
Na sua arte maior, Rita Lee atraiu, como um imã, àqueles que imaginava serem incompatíveis com sua simplicidade e talento. João Gilberto, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Maria Bethânia, Gilberto Gil e tantos outros consagrados, viam nela os que os comuns transeuntes da música ignoravam, fazendo questão de dividirem com ela o néctar dos revolucionários interpretando as mais belas canções do repertório iluminado. Rita Lee era uma sofisticação para esses talentos consagrados que investigavam, na vivência do palco, o que seria aquela essência que tanto encantava, sem fazer qualquer estardalhaço.
A divina Rita Lee ensinou que é possível ser original se transformando continuadamente. Nunca uma pessoa, com diversas facetas, visíveis e invisíveis, parecia, aos olhos estranhos, ser sempre a mesma pessoa. De cabelos pretos, louros ou ruivos era a Rita Lee, desnuda, implacável, revolucionária, original, capaz de fazer até presos clamarem por uma boa música, mesmo no infortúnio do cárcere. A inspiradora e visionária Rita Lee foi capaz de enxergar seu pós-morte com os elogios à loucura que Erasmo de Roterdã tanto falava. Na sua partida – como vaticinou – muitos se sentiram a ovelha negra da família, numa música que ensina que, mesmo quando nos sentimos perfeitos, há concretamente a possibilidade de uma existência em desalinho comportamental, fora do eixo da moral, porque somos esses seres que Rita Lee vivia pregando, uma síntese do bem e do mal, dando água na boca.