Sábio povo. Quem não quer ficar para trás, que arrisque. Há momento para agir e raramente se tem uma segunda chance.
Na arte de governar, não ocorre diferente. Ninguém alcança o topo se não arriscar. É importante que as opções sejam enfrentadas, sob pena de se ter de escolher entre resultados ruins ou piores do que o imaginado. Estes são aqueles que dependem dos outros e não de nós.
A omissão custa caro, pela perda da chance. Consideremos o sentimento de alguns dos antigos ingleses em não ter interferido mais ativamente na Guerra Civil americana, pois perderam a única oportunidade que tinham de dividir o que hoje conhecemos como EUA e que logo após os ultrapassaram em importância. O pensamento não é nosso, mas do Lorde Salisbury.
Nas últimas décadas, os EUA monitoraram de perto a antiga União Soviética e a atual Rússia, ainda jogando nos tabuleiros do Oriente Médio, das Américas e do Pacífico. Enquanto isso, a China ficava ali, isolada.
Talvez os EUA seguissem a cartilha de Napoleão, que dissera que seria melhor deixar a China dormir, sob a advertência de que, quando acordasse, o mundo tremeria.
A China seguia, com terríveis níveis econômicos e números nada invejáveis nos anos 1980: casas de bambu, cidades lotadas e o povo lutando para sobreviver, com 88% em estado de pobreza. No caso deles, 88% de 1 bilhão de habitantes!
De repente, numa geração há muitas mudanças e a China alcança o topo. O choque é tão grande que, em 2016, Henry Kissinger disse que se alguém tivesse lhe mostrado há 25 anos uma foto da Pequim atual, ele diria ser impossível.
Discretamente a China transformava-se, enquanto os EUA se atolavam no pantanal em que se transformou a Guerra do Vietnã e tinha problemas com a Nicarágua e tantas ditaduras fomentadas nas américas, além do pesado jogo no Oriente Médio e a OTAN (como cabeça de ponte na Europa, a frear o socialismo vizinho) e se colocar como o Reitor do Mundo por anos. Deixou de ser aquela dos tempos da Revolução Cultural para emergir nos anos 1980 como essencialmente capitalista! Isso é um fato de extrema curiosidade.
Não seria errado dizer que o mundo globalizado foi estruturado para atender a uma expansão do mercado produtor e consumidor que servisse a interesses econômicos e geopolíticos dos EUA e dos seus maiores parceiros.
Por outro lado, só pôde funcionar com uma integração de mercado e realização de tarefas em países onde a mão de obra era extremamente barata, quando comparada ao preço da produção nos seus próprios mercados internos. Grande parte da força de trabalho migrou para esses países. Ainda assim, isso lhes foi fundamental, pois tudo lá é grande e, se os números individuais poderiam ser baixos, o volume era impressionante.
Façamos uma breve comparação: se JK fez no Brasil nos anos 1950 um governo de 50 anos em 5, poder-se-ia pensar que a China fez em 30 anos uma mudança equivalente a 300. Os mais atentos perceberão que estamos falando de uma grandeza de 1 para 10. E é mesmo assim que as coisas ocorreram. Não foi vitória de regime ideológico ou do Comunismo na China. Não foi derrota do Capitalismo Ocidental contra o qual escreveu Marx. A população essencialmente rural dos anos 1980 (aproximadamente 80% de áreas não urbanizadas) salta para cerca de 45% em apenas 20 anos!
Essa migração para as cidades aumentou a demanda por consumo de energia, o mesmo ocorrendo com as fábricas que surgiram. O país que mais produz também é o que mais consome. De tudo lá se fabrica e consome e tanto e a tal ponto que, em 1980, o comércio exterior deles era menor que 40 bilhões de dólares/ano, enquanto 25 anos depois passou para 4 trilhões de dólares! Isso é um aumento de 100 vezes. Fala-se que, entre 2011 e 2013, a China produziu e usou mais cimento do que os EUA no Século XX! Não há comparações…
A China tirou 500 milhões de pessoas da pobreza mais extrema e também gerou imensa porção de milionários e bilionários! Há uma festa em compra de vários bens de luxo, com tanto consumo de caros produtos de grife, como bolsas de 8.000 dólares.
A China balança as estruturas, como previu Napoleão.
Na economia, o resumo acima já diz muito. Além disso, é a maior credora dos EUA! No modo de pensar e agir, são cinco mil anos de história e de cultura e, se este for um padrão de comparação, os EUA formalmente nasceram em 1776 e o Brasil foi descoberto em 1.500.
Independentemente do que se diga, a China prossegue crescendo. É a sua fórmula, não contida nos regramentos que tanto nos impuseram o FMI, o Banco Mundial e sistemas semelhantes.
O que nos chama a atenção é o que intitula este artigo. Qual a relação entre os destinos e os riscos assumidos? Riscos, passos e tropeços nos conduzem adiante. Em nosso caso, talvez tenhamos sido passivos demais…
Não é à toa que o Hino fala em “Berço Esplêndido”: temos ferro, ouro, bauxita, manganês, níquel, urânio, petróleo, terras raras e tantas e tantas riquezas, inclusive algumas não tão óbvias para quem as têm em quantidade, como a água doce limpa e ar puro e sol o ano todo, num clima sem extremos.
Como saímos dos anos 1950 com industrialização se acelerando e aqui se estabelecendo siderurgia e indústria de petróleo, fabricação de automóveis, aumento da produção do setor agrário, urbanização já mais avançada do que a chinesa etc para estar, ainda hoje, com graves problemas estruturais, incluindo saneamento básico, educação, níveis de moradia, problemas de oferta de trabalho e emprego, transporte intermodal e produção de energia?
Por qual motivo ainda hoje temos problemas com dívida externa e alto endividamento público, campanhas mais envolvendo ataques a outros candidatos do que propostas concretas em planos plurianuais de investimento e exposição de planos e programas com ações reais? Parece que grande parcela da população tem vida política nos dias da eleição e uma apatia nos anos outros, com significativa parcela do povo funcionando como se a vida política não lhes dissesse respeito… Que tipo de cortina Brasília construiu para os andares mais altos, só de binóculo alcançáveis?
Como se projetar este nosso potente país nesse universo de batalhas diárias entre as mais altas economias mundiais e ações dos elevados estadistas em defesa dos seus países e povos, enquanto um jovem, com os seus vinte e poucos anos, ajuda a ensacar produtos no supermercado enquanto diz que sonha um dia poder ler um livro?
Quantas chances o Brasil perdeu? Por qual motivo, por que programas, por quais metas, por qual preço? Integrarmo-nos para alimentar as outras economias não significa nosso engrandecimento. Ser o maior exportador disso ou daquilo não significa recursos para potencializar a nossa economia, a poupança interna e as metas de médio e longo prazo.
Mário Quintana, o grande poeta, dizia que “são os passos que fazem os caminhos”. Se não soubermos quais passos dar, doravante, para onde iremos? Que nas próximas eleições – e não apenas na vindoura – possamos ter mais informações à população diante da realidade e do que nos espera no futuro, dos planos e projetos de governo, das metas de crescimento e investimento, antes que o berço esplêndido vá embora e seja agregado a outros povos e o nosso fique como o inquilino despejado.