Dividido em duas partes, a narrativa se desenrola respectivamente através do ponto de vista dos irmãos Tyler (Kelvin Harrison) e Emily Williams (Taylor Russell). Na primeira parte, o promissor atleta Tyler vê sua vida virar de cabeça para baixo quando sofre um acidente que o impossibilita de treinar; todo o ódio decorrente do evento é transformado numa necessidade de controle tão absurda, que o leva a tomar uma atitude impensável quanto a seu relacionamento, tido como perfeito. Na segunda, Emily tenta lidar com uma tragédia e acaba, sem querer, conhecendo Luke (Lucas Hedges), que aos poucos, vai lhe mostrando que a vida não precisa ser tão amarga quanto o momento que viveu a fez enxergar.
Um dos fatores decisivos para a progressão impecável da história é o desenvolvimento muito bem construído de cada personagem. Enquanto Tyler é um retrato da masculinidade frágil e tenta sempre se colocar em uma posição superior para não lidar com o que não pode controlar/aceitar, Emily é doce, altruísta e esperançosa. Cada personagem é tão carregado de verdade que chega a ser difícil não se emocionar. Mas a sensibilidade da direção de Shults não para por aí.
O filme inteiro é repleto de elementos experimentais, as cenas de clímax são uma verdadeira experiência do perigo que ronda cada situação, com um jogo de montagem, fotografia e paleta de cores que torna a experiência fílmica deslumbrante; atordoa de um jeito estranhamente bom. O estilo narrativo se assemelha muito a uma tragédia grega, que vai da perfeição absoluta ao pior cenário possível; o enredo funciona quase que como um efeito dominó, o espectador assiste à gradual destruição de uma aparente felicidade intocável e, posteriormente, à reconstrução. Além disso, as cenas são pensadas para trazer uma carga sinestésica muito grande, com takes ao ar livre, perto do mar, em cenários detalhadamente pensados.
Talvez um dos maiores acertos do filme seja essa versatilidade de saber trabalhar os contrastes. Não só porque Tyler e Emily possuem personalidades tão opostas, como também por seus arcos que caminham em direções totalmente diferentes. A impressão que fica é que as duas partes são dois filmes análogos, por mais que os resquícios da primeira parte continuem ali, não são um empecilho para que outros temas sejam desenvolvidos. Essa harmonia tão grande entre os contrastes, resulta em uma jornada profunda pela psique humana, pela família, pelas estruturas sociais, e, por fim, pela própria vida.
Por isso, essa é a história perfeita para quem entende que a vida nunca é uma coisa só. Transbordando emoções, amor, perdão e luto em um espetáculo visualmente estonteante, ‘’As Ondas’’ é um mergulho sinestésico na ambiguidade humana.