A equação é até simples quando se pergunta quem tinha o dever de não deixar acontecer e quem tinha a responsabilidade de fiscalizar para que o apagão não acontecesse. Sucede que a tragédia do apagão ocorreu em meio de uma pandemia e de um processo eleitoral quando toda a estrutura do Estado funciona na excepcionalidade e sob o olhar fiscalizador e crítico do cidadão. Ademais, o Brasil está há meia década em instabilidade política e sob o comando de um presidente que não economiza no protagonismo de fatos polêmicos. O caldo de tudo isso é indigesto e exige tomadas de decisão profundamente pensadas, a fim de evitar que possíveis soluções se transformem em problemas ainda maiores.
O Amapá tem algumas vantagens competitivas que conspiram a seu favor. Tem, por exemplo, o Presidente do Congresso Nacional e o Governador que preside o fórum de governadores da Amazônia. Essas forças têm a capacidade de mudar um cenário desfavorável. Ocorre que essas duas forças estavam num processo político e viram no apagão uma oportunidade de tirar proveito eleitoral em prol de seus aliados. O tiro saiu pela culatra. Primeiro, assumiram um protagonismo exagerado na busca da solução que os fez parecerem os verdadeiros responsáveis pelo ato danoso; depois, uma série de práticas de atos impensados e a demora na solução do problema fez convergir para eles a indignação da população. O resultado está sendo cruel para as respectivas imagens daqueles agentes públicos que no início tinham uma expressiva vantagem competitiva para sair como heróis na batalha cruel para restabelecer o bem-estar do povo do Amapá.
A tragédia do apagão no Amapá deixará viúvas. A causa eficiente desse passivo de imagem foi a inabilidade da ação na crise, consistente em não saber usar as vantagens com inteligência e estratégia adequada no momento oportuno. O que se viu foram ações de nítidos propósitos políticos, praticadas como se fossem ferramentas de marketing eleitoral impulsionadas por amadores e não ações responsáveis que visassem construir soluções para uma população em desespero. O resultado está sendo desastroso e ainda não mensurável em sua dimensão mais profunda, mas uma hora a conta vai chegar.
Enquanto a solução do apagão não chega os cálculos dos estragos estão sendo feitos. O Amapá entrou na pauta nacional pela porta da frente da tragédia e pelo protagonismo de suas lideranças políticas que não trouxeram a solução no tempo esperado pela população. O sofrimento do povo é contado em dias e em imagens televisivas que revelam um povo pobre e desassistido numa região rica que até exporta o que agora mais lhe faz falta: a energia elétrica. Com certeza viúvas terão!!!
Vicente Cruz
Presidente do Conselho de Administração, advogado sênior e Estrategista Chefe do IDAM (Instituto de Direito e Advocacia da Amazônia)
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