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A Gazeta do Amapá > Blog > Bem Estar > “Trimestre zero”: moda nas redes gera alerta sobre fertilidade
Bem Estar

“Trimestre zero”: moda nas redes gera alerta sobre fertilidade

Redação
Ultima atualização: 26 de março de 2026 às 13:14
Por Redação 5 horas atrás
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Nos últimos meses, uma nova tendência nas redes sociais começou a ganhar força entre mulheres que desejam engravidar. No TikTok, principalmente, criadores de conteúdo e influenciadores passaram a promover o chamado “trimestre zero”, um período de três meses antes da tentativa de concepção dedicado a mudanças intensas em aspectos como estilo de vida, dieta, suplementos e rotina de saúde.

Conteúdos
O risco dos radicalismosLimite biológicoO que faz diferença

A promessa parece sedutora: preparar o corpo com antecedência para aumentar a fertilidade, melhorar a qualidade dos óvulos e até reduzir o risco de aborto espontâneo. Em alguns vídeos, o período virou quase um protocolo: dietas restritivas, rotinas de exercícios milimetricamente planejadas, listas de suplementos e até a eliminação de cosméticos considerados potencialmente “tóxicos”.

Mas o que existe de ciência por trás dessa ideia e o que é apenas exagero? “O conceito tem uma base biológica real: tanto o óvulo quanto o espermatozoide levam cerca de 90 dias para amadurecer, e o que a mulher e o homem vivem nesse período pode, sim, influenciar a qualidade dessas células”, explica o ginecologista e obstetra Denis Schapira Wajman, especialista em reprodução humana do Einstein Hospital Israelita.

Ainda assim, não significa que três meses de mudanças intensas vão necessariamente transformar a fertilidade de uma pessoa. Uma revisão científica, publicada em 2025 no periódico Human Reproduction Updante, avaliou dados de 7.795 mulheres e concluiu que intervenções no estilo de vida antes da gravidez não aumentaram significativamente as taxas de gestação entre aquelas que já eram saudáveis.

“Os benefícios apareceram principalmente em mulheres com obesidade, infertilidade diagnosticada ou problemas metabólicos, ou seja, quem tinha algo a corrigir”, reforça Wajman. “O ‘trimestre zero’ faz sentido como correção de risco, não como otimização mágica para quem já tem saúde preservada”.

O risco dos radicalismos

Muitas rotinas associadas ao “trimestre zero” incluem dietas restritivas, perda de peso acelerada e treinos intensos com o objetivo de atingir um “corpo ideal” antes da gravidez. O problema é que intervenções radicais podem desregular o próprio sistema hormonal responsável pela ovulação.

Emagrecimento excessivo, restrição calórica severa e exercícios em excesso podem suprimir a função ovariana e levar à anovulação, quando o ovário deixa de liberar óvulos. Além disso, pode haver desregulação hormonal, o que também não é desejável para quem pretende engravidar.

Existe ainda outro efeito colateral possível da tendência: a ansiedade. “Níveis elevados de estresse e ansiedade no período pré-concepcional estão associados a maior dificuldade para engravidar, ciclos irregulares e maior risco de anovulação”, alerta o médico do Einstein.

Essa pressão também é alimentada por uma ideia equivocada: a de que a gravidez pode ser planejada com precisão matemática. Na prática, mesmo casais completamente saudáveis têm de 20% a 25% de chance de engravidar em cada ciclo menstrual. “A gravidez não é totalmente controlável, e criar essa ilusão pode gerar sofrimento desnecessário quando a espera se prolonga”, salienta o ginecologista.

Limite biológico

Uma das promessas mais repetidas nas redes sociais é a ideia de que seria possível “melhorar a qualidade dos óvulos” em poucos meses. Mas isso depende de processos celulares complexos, como integridade cromossômica, função mitocondrial e regulação genética, mecanismos que dificilmente podem ser revertidos, ainda mais em um curto espaço de tempo.

“Portanto, acreditar que a qualidade dos óvulos pode ser significativamente alterada em três meses pode levar a expectativas irreais e, consequentemente, frustrações”, alerta o endocrinologista Fabio Comim, diretor do departamento de Endocrinologia Feminina, Andrologia e Transgeneridade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e professor do departamento de Clínica Médica da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Outra questão é a reserva ovariana, o estoque total dessas células. Ela é determinada antes mesmo do nascimento e diminui progressivamente ao longo da vida, especialmente após os 35 anos. “Nenhuma mudança de estilo de vida é capaz de aumentar essa reserva ou rejuvenescer os ovários. Isso é consenso médico. O que o estilo de vida pode fazer é modular o ritmo desse declínio e preservar a qualidade dos óvulos disponíveis”, afirma Denis Wajman.

Quanto à promessa de reduzir casos de aborto espontâneo, a maioria tem causa cromossômica, e isso não é modificável por nenhum hábito de vida. Por outro lado, há casos como o de hipotireoidismo não tratado, associado a aborto e problemas no desenvolvimento neurológico do feto.

Outro ponto frequentemente ignorado nos vídeos virais é o papel do homem. O fator masculino está presente em até metade dos casos de infertilidade conjugal, sozinho ou combinado com fatores femininos. Tabagismo, álcool, obesidade, sedentarismo, exposição a toxinas, privação do sono e doenças crônicas como diabetes afetam diretamente a qualidade do sêmen, reduzindo motilidade, concentração e aumentando danos ao DNA dos espermatozoides. “A fertilidade é sempre do casal, e o ‘trimestre zero’ que ignora o homem está resolvendo metade do problema”, observa o médico do Einstein.

O que faz diferença

Embora não sejam uma solução milagrosa, mudanças no “trimestre zero” podem ter impacto real em alguns casos, principalmente quando há fatores de risco. Parar de fumar, reduzir o consumo de álcool e controlar o peso podem diminuir o risco de malformações, aborto e complicações na gestação. “Um estudo europeu recente mostrou que tabagismo e obesidade afetam negativamente o crescimento do embrião já nas primeiras semanas, enquanto níveis adequados de folato [vitamina B9] favorecem esse desenvolvimento”, relata o ginecologista.

Daí vem a recomendação de suplementar ácido fólico, a forma sintética do folato, antes da gravidez. Doses adequadas do nutriente reduzem o risco de malformações no tubo neural, além de melhorar as chances de concepção tanto natural como na fertilização in vitro (FIV). Já outros suplementos populares nas redes — antioxidantes, vitaminas e compostos “detox” — raramente têm benefício comprovado quando não há deficiência nutricional.

O cuidado com certos produtos de higiene pessoal, incluindo cosméticos de uso contínuo ou cumulativo, também faz sentido. Alguns têm substâncias que são disruptores endócrinos, capazes de interferir nos sistemas hormonais e impactar negativamente a função reprodutiva em homens e mulheres. “Eles devem ser evitados especialmente em períodos de suscetibilidade, como a gestação e a infância”, aconselha Comim. Entre as substâncias estão parabenos, ftalatos, bisfenol A, triclosan e benzofenonas — preste atenção aos rótulos.

Outras medidas essenciais incluem controlar doenças como diabetes, hipertensão e distúrbios da tireoide; atualizar vacinas como as de influenza, hepatite B, rubéola, varicela e HPV quando indicado; cuidar da saúde mental; e realizar exames e acompanhamento médico regularmente.

Para quem já tem saúde preservada, três meses podem ser suficientes para iniciar algumas dessas medidas. Mas, para pessoas com doenças crônicas ou fatores de risco, o preparo pode levar mais tempo. “O ideal é que o cuidado com a saúde reprodutiva seja contínuo ao longo de toda a vida fértil, e não apenas nos três meses antes de tentar engravidar. Cada consulta com uma mulher em idade fértil é uma oportunidade de identificar e corrigir fatores de risco”, conclui Denis Wajman.

Fonte: Metrópoles

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Redação 26 de março de 2026 26 de março de 2026
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