Não nos iludamos, pois é antiga a cobiça internacional sobre a Amazônia e temos nos saído bem, até o momento.
Muito se fala em ONGs, mas além dessas há as ONGOGs, que são organizadas por governos. Isso mesmo: “Organização Não Governamental Organizada por um Governo”! Verdadeira contradição, como tantas que existem no mundo.
A História nos ensina e nos ajuda a entender o presente. É cíclica, com os fatos parecendo se repetir, com novos atores e variantes. A cobiça vem de longe…
Em 1849, Matthew Fontaine, tenente da marinha americana, dizia que a bacia do Amazonas seria mera continuidade do Rio Mississipi! Nossa Soberania restou-se intacta sobre aquelas nossas terras e águas, graças à percepção de Dom Pedro II e à ousadia do Barão de Mauá, com a criação da Companhia de Navegação do Amazonas, resposta eficaz e efetiva ao que os estrangeiros pretendiam ali.
Também merece lembrança a vitoriosa resistência do Brasil na questão em torno do Acre e do Bolivian Syndicate, ocorrida de 1901 a 1903. Em grande resumo, a canhoneira americana Wilmington, navio fortemente armado, subia o Rio Amazonas sem licença do governo brasileiro. Houve clamor público e o Brasil se posicionou.
O Bolivian Syndicate foi organizado em Nova Yorque, com capital de comerciantes americanos e ingleses, incluindo um filho do presidente americano Teodoro Roosevelt. Detalhe relevante é que os barcos de guerra que subiam o rio seriam da organização, que representava os interesses financeiros das duas grandes potências. Rio Branco logo agiu e o governo brasileiro suspendeu a circulação daqueles navios, enquanto a nossa diplomacia teve sucesso na Europa e nos EUA, neutralizando a capitação de recursos para aquele empreendimento. O fim da história se deu com o Tratado de Petrópolis, assinado em 17 de junho de 1903, que encerrou o litígio e pelo qual o Acre foi mantido definitivamente com o Brasil.
Outra situação importante está no registro de que o Presidente americano Taft (1909/1913) chegou a dizer, no 1º Congresso Pan-Americano, em Lima, que todo “Todo o hemisfério será nosso, já que, em virtude da nossa superioridade […] é nosso moralmente”. Talvez o fizesse sob os ecos da intervenção no México (para salvá-lo de si mesmo), da qual “assenhoreia-se do Arizonas, do Texas, de Utah, um tesouro de riquíssimos lençóis de petróleo e um Eldorado de pradarias verdes. Em 1808 apoderam-se de Porto Rico, Guam e Filipinas. Em 1893 tomaram da Colômbia o território para o Canal do Panamá”, conforme lições de Carlos de Araújo Lima.
Além desses casos, houve aquele contido no título deste estudo, envolvendo o Projeto Hileia Amazônia, de 1947, da UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, sediada em Paris e vinculada à ONU – Organização das Nações Unidas.
O ex-Presidente do Brasil e então Deputado Artur Bernardes liderou-nos na campanha contra a criação da Hileia Amazônica, pois entendia que o instituto não estaria a serviço do Brasil ou da Amazônia brasileira, mas seria apenas a bela imagem de projeto mais amplo e perigoso, revelador da cobiça, que oportunamente levaria ao fechamento do cerco e do botim das riquezas e bens, após a tomada e divisão da Amazônia.
Pela proposta, o internacional Instituto Hileia gerenciaria o uso da terra, para empreendimentos de capital, expansionistas e, por que não dizer, coloniais. Poderia até vender nossas terras, como explicava Artur Bernardes: “adquirir e alienar glebas amazônicas (bens imóveis), criar serviços, contratar etc”
As entrelinhas diziam mais do que revelavam os belos textos de apresentação do projeto. De fato, é mais fácil dizer o “não” logo no início do que deixar que certas iniciativas avancem para depois, arrependidos, ficarmos a verter lágrimas.
Soberania não se negocia e, em verdade, se a exerce plenamente ou não. Não há Soberania em seu sentido correto e pleno, se está perfurada (Rivero, 2000) ou, como analisamos e conceituamos, emagrecida (Devisate, 2017).
Tais ações foram fundamentais para que não fosse a nossa Soberania erodida, ante os canhões dos cobiçadores ou por ralos político-gerenciais em torno de acordos, que até podem ter a ponta do Iceberg iluminada pela luz, embora com o intuito de ofuscar o imenso bloco submerso e invisível, capaz de causar os maiores danos.
Importante jamais esquecer que falas contemporâneas nos atacam em torno das queimadas, embora saibamos que algumas são criminosas (sim!) e que outras são legais ou decorrentes de anuais fenômenos naturais, na seca, tanto ali, quanto na Califórnia (Estados Unidos) ou na Savana africana. Por conveniência, parecem negar a realidade de que a Amazônia não é só floresta tropical, com imensas árvores, possuindo também matas de Cerrado e áreas com combinação dos dois tipos de vegetação. Além desses atuais discursos, ainda ecoam pronunciamentos feitos por Al Gore (“Ao contrário do que os brasileiros pensam, a Amazônia não é deles, mas de todos”), François Miterrand (“O Brasil precisa aceitar uma soberania relativa sobre a Amazônia” e Gorbachov (“O Brasil deve delegar parte dos seus direitos sobre a Amazônia aos organismos internacionais competentes“)
Enquanto isso, desabaram posturas adotadas durante a COP 26, diante da necessidade de mais energia gerada pela queima do carvão, com os EUA e a China aumentando o uso dessa poluente matriz energética, mesmo durante aquele evento!. É crível que não haja pudores em se fazer discurso e se o negar ações. Enquanto se idealiza o visionário Hidrogênio Verde (teorizado como o combustível do futuro) se usa energia nuclear, carvão, gás e petróleo e se treme, diante do colapso que a Guerra na Ucrânia possa causar na Europa. Aliás, parece piada, mas a Califórnia alertou os proprietários de carros elétricos, diante da pressão na rede, causada pelo carregamento das baterias (“Com sua rede elétrica sob pressão, a Califórnia pede aos moradores que evitem carregar veículos elétricos”. Fonte theepochtimes, Jack Phillips, 23.6.2021)!
Por isso, ao menos por ora, parece que nos esqueceram… Sabemos, porém, que logo voltarão à carga, pois a cobiça é histórica e o conceito de bem público global é uma ameaça.
Por fim, o título deste artigo indica que cada caso levado à biópsia poderia revelar câncer em estado avançado e, portanto, incurável, ensejador da perda da nossa Soberania sobre a Grande Amazônia Legal, que corresponde a 59% do Território Nacional!
Por sorte, em todos os casos a biópsia revelou tumores benignos e sem maiores consequências, eis que, felizmente, o Brasil soube se impor. Que assim seja e continue, inclusive para que as tradições e a cultura nacionais sejam preservadas para o nosso povo. Feliz Páscoa!