O Presidente Jair Bolsonaro, apesar de seu repudiável autoritarismo, no fundo é um gestor inseguro e fraco. Basta anotar suas inúmeras manifestações de insegurança e fraqueza quando alerta, diante de situações corriqueiras, que quem manda no governo é ele, chegando, inclusive, nessas ocasiões, a adornar o ato com palavrões de autoafirmação. Paulo Guedes sabe disso e, como raposa do mercado financeiro, vinha colocando suas pautas de acordo com as oportunidades e conveniências, sempre atento ao humor do Presidente. Sucede que o Presidente também é uma raposa na política e sabe quando as decisões de seus subordinados ameaçam seus objetivos na área que mais conhece.
Recentemente, o Presidente teve a experiência de saborear uma subida na popularidade com o incremento do auxílio emergencial, fruto social da pandemia, inclusive no Nordeste, reduto consagrado da esquerda. Ora, se o auxílio emergencial foi a causa eficiente do aumento de sua aprovação como gestor máximo da nação, elementar que esse instrumento de reparação social seja mantido. Foi exatamente aí que Paulo Guedes errou na leitura. Todos sabem que o auxílio emergencial foi concedido com resistência pelo Presidente e quando não poderia mais relutar, propôs em valores menores, tendo perdido essa batalha para o parlamento. Todavia, agora o auxílio é a ferramenta que catapulta a imagem do Presidente, logo tem que ser mantida a qualquer custo, inclusive com o sacrifício do desentendimento com seu colaborador mais prestigiado. Paulo Guedes ousou mexer na, agora, menina dos olhos do Presidente.
Paulo Guedes parece que não entendeu que o Presidente sempre agiu como o dono da bola. Parece quem não tem intimidade com esse personagem do subúrbio das cidades brasileiras. O “dono da bola” é aquele cara chato da pelada do bairro que é ruim, autoritário, sensível, arrogante, mas é o dono da bola, sem a qual não há jogo. Não se pode sequer cogitar em contrariá-lo, mesmo quando ele não tenha um pingo de razão na contenda. Ou ele ganha o debate ou acaba a pelada. O Presidente Jair Bolsonaro age assim. Ou se faz o que ele quer ou “o caminho do feio é por onde veio”. Já mandou para casa vários colaboradores que ousaram divergir de suas convicções. Ao Ministro Paulo Guedes resta agora torcer para que o “dono da bola” não tome a decisão de tirá-lo do jogo, mesmo que obedeça ao comando de não mexer no queijo do Presidente.
Vicente Cruz
Presidente do Conselho de Administração, advogado sênior e Estrategista Chefe do IDAM (Instituto de Direito e Advocacia da Amazônia)
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