Há mais de trinta anos, talvez quarenta, sempre que vinha a Valadares, bem ali na esquina da Sete de Setembro com Olegário Maciel, num armazém chamado Elcy, me abastecia de queijos para o regresso. Sempre mesma marca: Sabinópolis.
Muita gente, como eu, o fazia, acreditando que tal queijo era fabricado na terra do ex-prefeito em função do nome expresso na face da embalagem. Engano! Ele é feito aqui mesmo, ali em Penha do Cassiano. É nosso, e na minha opção e gosto, o melhor queijo de Minas feito no Brasil.
Para Manaus ou Boa Vista, Roraima, abusando em ter avião, seguiam sempre comigo 20 ou 30 de tais queijos e com eles 10 quilos de linguiça temperada do açougue do Alemão (coisa fina), mais 10 quilos sem tempero (coisa boa) e uma infinidade de torresmos semiprontos. Completava tal kit mineiro bem mais de dúzia de uma cachaça de Salinas, a Seleta (trem bão que só). Em nossa chegada tornava-se difícil garantir o nosso próprio consumo. Nunca deu para quem queria.
Parecia mesmo, que levávamos os manjares dos deuses, tanto era a receptividade e boca de consumo.
Anos passando e eu sempre nessa atividade, a apregoar coisas de minha terra. Até modernizei as dádivas. Com caixas de isopor montava um kit família consistido de três queijos, dois quilos de linguiça, dois pacotes de torresmos, duas pingas e sempre acompanhando tudo, um quilo de espetacular manteiga caseira (uma delícia!); aliás, dizem que estou gordo, o que não é bem verdade, [talvez um pouco só], é por comer muito pão que tenho que usar para comer a tal manteiga. Meu médico, de cabeça toda branca, recomendou-me que abandonasse, poderia fazer mal à minha saúde na idade ostentada. Optei pela manteiga perguntando se isso causaria vacância ao meu atendimento médico. Ele continua.
Neste tempo, fui até São Paulo onde mora uma filha. Embora viúva, linda, tranquila e com disposição de mais trabalho, perguntou-me que mais poderia fazer. Não preciso nem dizer que ela, como outros filhos em Brasília e um em Goiânia são parceiros comilões habituais do cardápio das montanhas que sempre lhes mando. Os correios me sacaneiam cobram quase o mesmo valor do que vai dentro, mas o paladar deles fala mais alto e cada vez despacho maior quantidade. Quando de carro, chego a abusar. Em São Paulo, provocado pela chamada ao trabalho e verificando o sucesso dos produtos, principalmente, entre seus amigos que muito reclamavam não existir nada daquilo em suas cidades, acreditei sinceramente ter feito excelente achado.
Eureka!
Propus imediatamente aos três pontos de emoções de minha vida, abrir com eles nos shoppings locais, pequena loja para vender as coisas e os carinhos das Minas Gerais. Chamaríamos as lojinhas de Caminhos da Roça. Imaginávamos até decorações bem baratas, com cordas, laços, selas, balanças velhas, fumo de rolo, sacos de linhagens cheios usados como banco, e outras frescuras bem do interior mineiro. Cascatas de reais já tilintavam em nossas cabeças.
Acreditávamos ter encontrado através de bocas e paladares um dos melhores negócios possíveis hoje no Brasil. Pois sim…
Tempo passando, fui com amigos encontrar, um senhor importante, presidente de sindicato em nosso Estado, que reúne a turma do leite, seus derivados e suas indústrias. Em pequena pausa e espaço de tempo, contei-lhe meus projetos e castelos, inclusive enaltecendo a grande penetração dos produtos das Gerais. Gabei até da linguiça do Alemão, a fabricada, não a murcha.
O homem ouviu atentamente e, por fim, fez bombástica revelação que explodiu minha inteligência: “Nenhum produto industrializado com leite cru, como os queijos mineiros, as artesanais manteigas, ou linguiças e mesmo torresmos sem SIF (Serviço de Inspeção Federal) pode ir além de nossas fronteiras estaduais ou ser nacionalmente consumido. A saúde pública através da legislação federal não o permite”, arrematou.
O que quer dizer, vivo há mais de meio século no contrabando e tráfico de guloseimas deliciosas. As licenças ou não licenças sanitárias que aqui se permitem, nada valem lá fora. Mineiro, se for o caso, pode até morrer nos prazeres de seus quitutes e cozinha; paulistas e outros patrícios, pelo menos por enquanto não terão este prazer.
Se troços dos peitos de vacas, dos porcos, da água cristalina, da cana de açúcar ou tradição matassem, por cá, nós mineiros, estaríamos todos mortos, porque antes de existir um Estado nesses rincões, quiçá o Brasil, todos já degustavam tais prazeres.
Enfim, com isso, os Caminhos da Roça se acabaram, e terei que continuar a traficar comida de anjos, mas voltarei a insistir na ideia mais um pouco. Embora nestes tempos tenham me dito, que algo foi mudado em tais leis. A esperança é que também a França, que coiceou o Lula, também altere suas leis protetoras a estes setores; porque aí “nóis entra”, com Caminhos da Roça de saborzinho “minero”, e “quebramoêles”.
Apenas, peço a meus filhos perdoarem, sonhos perdidos, os sacrifícios impostos e outras burrices nacionais.
BH/Macapá 17/03/2024
José Altino Machado