Primeiro, quero lhe dizer que há um Deus, criador de tudo. Spinoza o definiu muito bem. Recomendo conhecê-lo. Aliás, disse Spinoza que Deus está nos olhos dos nossos filhos, logo está nos seus lindos olhos, cuja indagação todo dia me assalta quando recebo suas imagens de seu pai, suplicadas serenamente pelo amor que me domina. Deus fala mansamente com a gente, Fernanda, e não escolhe lugar nem hora. Suponho que agora trave um diálogo sério comigo, porque sinto algo inexplicável e divino para escrever esta carta. Imaginava, de início, que seria minha mãe Rosa, com suas visitas frequentes, uma apostolada que um dia você conhecerá na sinceridade de suas orações. Mas vejo que é o Deus de Spinoza que irradia sua presença.
Imponho-me, Fernanda, o sagrado direito de lhe mostrar o meu mundo. Há tantas coisas belas nele que nem sequer as conheço completamente. Uma delas é a poesia de Maiakovski, o maior poeta do futurismo, que dizia que o amor era indestrutível pelo tempo e pelas rusgas, cuja obra conheci, quando menino, nas visitas corriqueiras na biblioteca da igreja que ainda hoje frequento. Quero que tenhas todos os livros que sonhei tê-los, mesmo que reserve para eles algum tempo de desprezo, porque eles também precisam de descanso. Os livros também falam silenciosamente com a gente, Fernanda. Se há algo que me retrata bem é um livro.
Quero que o tempo e a existência, Fernanda, me permitam contar as histórias que reservei pra você. Falarei da poesia de Ledo Ivo e recitarei seus versos com um sotaque nordestino de improviso. Falarei das crônicas de Fernando Canto, das músicas de Osmar Júnior, dos meus sambas, dos enredos, das poesias, das crônicas, dos artigos escritos como um ato revolucionário, da boemia e, enfim, da minha fé profunda. Falarei, também, das histórias circunspectas de meu pai que me ensinou atravessar os rios. Revelarei, Fernanda, alguns segredos que me ensinaram a contornar os obstáculos e a visualizar, com rara inteligência e fé, a presença de Deus. Mas, se não for possível, Fernanda, leia, por favor, “Deus segundo Spinoza”, pois estarei lá, como todos os avós estão.