Deixe-me dizer, não me acho importante. Meio apagado, até perdido nas profundezas colossais de uma Amazônia tida por alguns como inóspita, mas a mim mundo acolhedor. Entretanto, nos coube Lula, junto a leais companheiros, até mais fortes que eu, muitos dos quais hoje in memoriam, receber e conseguir prover naquela região, levas e mais levas de famílias inteiras de brasileiros, que não quiseram entrar na “fila dos ossos” citadas por você e que aqui buscaram seu último refúgio. Coisa pouca, pouco mais de 300 mil. E para isso meu caro Lula, tivemos que varrer da Amazônia algumas dezenas de ambiciosas empresas que usando a todos como alvos, requeriam seus papeizinhos ao DNPM e chegavam com a pretensão de nos expulsar dizendo que tudo era delas.
Que varredura, Lula!!! Tiramos todas.
Até voltando um pouco no tempo, antes desses episódios “a la cowboy”, tivemos a capacidade também de receber na década de 70 os espiantados de Rondônia por uma famigerada portaria do MME de número 195, que retirava do trabalho alguns milhares de homens daquele estado. E foi com eles que podemos descobrir todas essas riquezas que seguraram a economia venezuelana e seguram até hoje. Aquele monumento na praça de Boa Vista-RR, nós o fizemos em homenagem a eles pelo sucesso com que adentraram a Venezuela. E para você ver, nunca houve qualquer atrito deles para com o governo venezuelano, porém agora, para lhe agradar, ouvi até o discurso do amigo Maduro falando em combater, como você, a “mineiria ilegal”. Que mau exemplo, hein?
Aos que ficaram em Roraima, coube a responsabilidade da descoberta de uma das mais ricas províncias minerais do planeta, isto é, a região do Parima na fronteira com a mencionado vizinho. E lá não havia índios, meu caro Lula. São áreas extremamente arenosas com pouca ou quase nenhuma terra propriamente dita com alguma fertilidade. Quando da primeira saída dos pioneiros daquela região promovida pelo governo do então território de Roraima, a área foi repassada a Companhia Vale do Rio Doce que assumindo as benfeitorias por nós construídas, também promoveu a instalação para a FUNAI de postos de atração voltados a comunidade dos índios, até então nômades. A qualidade das coisas bancadas pela Vale eram tão boas que tudo ficou até pequeno, para a quantidade de índio que subiu àqueles altos.
Decorridos alguns anos, coisa de 4/5, lá em 24 de agosto de 84, se não me falha a memória, a Vale devolveu as prioridades legais, ao órgão gestor dizendo que naquela área não havia nada econômico a ser explorado. Incrível, não é Lula? Até hoje ela produz minerais valiosos, com custos de extração invejáveis a Carajás. Uma dica para a governo, fazer consulta oficial logo a seguir a desistência da Vale, e poder notar requerimento de toda a região a uma empresa do filho da presidência da dita companhia. E isto não é só fofoca Lula, mas deu início a uma confusão dos diabos.
Retaliando, retornamos todos a região, mesmo tendo perdido benfeitorias até para o Exército em Surucucu. Mas, aí sim, ao redor existiam alguns índios que abandonando o nomadismo, pelo aparente “benefício” de ajudas recebidas, buscavam estar no entorno de quem continuasse a contribuir a seus sustentos. E isto é que foi o desastre.
Na ocasião, como hoje ainda acontece, a política a eles, era tangida por ordens religiosas que insistem não se dever mexer na cultura deles, nem para que possam viver e com mais dignidade. Uma teologia bem próxima de ser criminosa.
A expectativa de vida daqueles índios é apenas de 32/34 anos. A mulher, por tradição dá luz sozinha no mato e um bom bocado delas morre de infecção uterina. Entre seus maiores males, está a onconcercose e a sarna. A malária que sempre aparece em determinadas estações do ano e que veio para a América nos navios de Cristóvão Colombo, por lá costuma estar presente. Assim é fácil prever como aconteceu, eles próprios se transformando altamente contaminadores ao meio ambiente dos lugares onde arrancham e sem nenhum cuidado de higiene, deixando restos, lixo, urina, e fezes infestar o lugar. O desastre sempre foi enorme por causa disso Lula. Ficando pior, pela escassez de frutos doces portadores de vitamina C, o que leva a imunidade para o saco.
Conhecedor e observador do problema, na ocasião, solicitei a toda aviação garimpeira que retornando com seus aviões vazios, pedissem aos trabalhadores para buscar todo e qualquer ianomâmi doente e o embarcasse nos aviões para tratamento em Boa Vista, uma vez que a SUCAM sem condições, não podia fazê-lo.
Arranjado lugar para que ficassem, buscamos então caridades de quem dizia os apadrinhar, na ocasião então, a maior autoridade religiosa no Estado. Não é que o sacana a vista de tudo, usou a situação como moeda para implantação política de seus anseios e suas teologias, inclusive, falsamente nos dedurando como responsáveis pela desgraceira? O italiano não tratou tanto em ajudar, mas buscou notoriedade aos pleitos da Ordem, denunciando e nos culpando por tais doenças embora provocadas por abandono e, repito, por “criminosas cuidas” recebidas. Mesmo assim, injuriado, e com uma primeira grande mágoa recebida, levei todos já saudáveis de volta a suas aldeias.
E agora Lula, em carta de palpiteiro, sugeri que fosse vê-los lá onde ficam, podendo inclusive verificar que muitos deles vieram expurgados pela desgraceira do lado venezuelano. Mas, você assim não o fez. Foi sim, permitir proximidade a interlocutores do mesmo covil de onde sumiram alguns milhões que seriam dirigidos a saúde indígena. Poderia haver feito presença aos necessitados nas florestas. Magoou muito tal utilização de imagens publicadas para cunho político, antagonismos a já ultrapassados adversários e pelo desinteresse total ao verdadeiro conhecimento das causas. Pegou mal para nós e Nação… Preço alto, todos pagamos.
Os ianomâmis Lula, não são um só povo, cujo costume é uns roubarem mulheres dos outros. De maneira alguma eles têm liderança única, isso não existe, cada maloca tem seu tuxaua.
Quanto a questão do mercúrio que tanto falam, coloco sobre a mesa toda a metade de século de credibilidade, para que possam provar um único índio contaminado por este metal, ou mesmo um único peixe. O pai dos burros, o dicionário, até ele, talvez possa dizer a diferença entre o mercúrio metálico e o metil mercúrio, este último causado por bactérias em plantas e folhas que produz o veneno por todos citados. Se eu tiver errado pode mandar me castrar.
Em tempo: Lula, como um bom pernambucano, possível conhecedor do assunto, mande para lá mulheres rendeiras treinadas com agulhas para extraírem bicho de pé das crianças ianomâmis. Nelas, eles fazem festa, as deformam e como a tudo, também são ignorados pelos guardiões das almas.
José Altino Machado.
Macapá, 29 de janeiro de 2023.