E eu que tenha certeza de que estava um pouco pior do que você. Saúde formidável tinha há coisa de 2 anos. Aí fui mexer na coluna, logo nos chassis do corpo. Procurei o melhor médico que podia encontrar lá no BH. Bom que só e fiquei até muito amigo dele. Mas, deu tudo errado. Operei uma vez e 15 dias depois outra vez, também não dando certo.
Apesar de toda simpatia e habilidade dele, não quis voltar mais aquela mesa de cirurgia e espero não mais lá deitar. Estou sim aprendendo a conviver com as dores como tenho aprendido a conviver com várias amarguras deste seu governo. Hoje de repente, acabo por descobrir que também aquelas bolinhas parecendo bola de sinuca no fêmur da gente também dão defeito. Nessas coisas nos igualamos, e dói para danar. Mas, te confesso, com a saúde em dores que estamos, estou até imaginando o motivo de sentido raivoso que você está dando a todo momento. Dói demais e você conviver com a dor é coisa terrível, prejudicando, como disse em carta passada, por indo também conosco para a cama. Realmente, além disso, como diz o sádico sarcástico, na idade que temos, os dois, teremos sempre que vencer a preguiça para fazer amor e mais agora, estudar a engenharia da posição por reclamações da coluna e quadril. Dá para desanimar… Todo dia, toda hora, em todo momento, o estado nervoso vai a extremos e a sensação de queda é terrível. Acrescendo ainda que nesses chiliques que damos, tivéssemos armas, daria mesmo vontade dar uns “papoucos” naqueles que nos contrariam demais.
Porém, quanto a isso Lula, em mim sem problema. Quando muito nervoso agitadão e raivoso, me recolho em casa ao lado de pessoas que me amam e que podem compreender o meu estado. No seu caso, não dá para fazer isso. É o presidente da República e sei perfeitamente que não passa por sua cabeça deixar o paulista sentar-se por enquanto.
E por falar em papoucos, gíria de tiros, discordo inteiramente de você no tocante a desarmamento como tem proposto e tentado fazer, acho que não deveria ser assim o desarmamento, inclusive por sua legalização em referendo popular, sendo necessário outro pra revoga-lo, pois está acima de decretos presidenciais. Poderia sim, ser mais seletivo, através de leis regulamentares, podendo-se aumentar o rigor com exigências de atestados psicológicos para aquisição de armas, nunca cassando direitos de forma geral como você tem feito. A impossibilidade de defesa própria e ou patrimonial, só vai a benefício do malfeitor, grandes e históricos exemplos avalizam o que digo. Todo mundo sabe disso e só uma ditadura não pode reconhecer.
Tudo bem, Lula, apenas acho que tinha que repensar um pouquinho porque a coisa não pode ser assim, com base de tanta repressão e abertura de tantos confrontos. Aliás, tudo que tem feito é sempre regado a doses de exagero, principalmente na Amazônia, onde têm passado o rodo.
Noutras ações intentadas com violências por sua gente a elas que se busque reparos. Não se modifica culturas, tradições, vocações, vontades e comportamento de longos anos na marra. Fui simples “operário” na elaboração da Constituição federal, mas trabalhei bem, e engraçado Lula, que nosso maior apoio, foi da esquerda nacional. Nós da garimpagem, sem filosofias ou partidarismos, enfrentávamos uma direita rica e braba em disputa a direitos legais e irônico que hoje a direita banca a esquerda contra a humildade cultural e ocupacional da Amazonia, que os canhotos fazem de conta que não sabem.
Na Amazônia, nas décadas de 80/90 a grande luta era contra as empresas de mineração nacionais e estrangeiras que queriam a qualquer custo as áreas que possuíamos de forma reconhecida, com documentos emitidos de forma legal e que ocupávamos.
Por nós descobertas, tornavam se alvos, para através benesses políticas de governo, tomá-las a si. Cabia a eles, o uso de capital, influências, imprensa e prestígios. A nós, o direito de difícil reconhecimento e a razão. E tudo isso foi transportado para o cenário constituinte. A fragilidade dos capítulos que nos protegem, categoria profissional única citada na Carta Magna, além dos óbvios advogados, não foi bem culpa nosso, mas sim a negociação possível. Insistimos muito que deveria constar na Constituição o direito de descoberta do achado mineral. Existente no mundo inteiro, inclusive em países totalitários. Achou, dono de um mínimo, mas dono. Aqui não, tem ficado como tempos da Coroa portuguesa para que alguém estabeleça a propriedade.
Sabíamos que sem o direito de descoberta iríamos continuar com o problema, entretanto, parceiros e aliados, Ministério Público Federal e Sistema Cooperativista entenderam que só passaria no crivo e disputa atribuindo ao Estado (governo) o reconhecimento e legalização dos extrativistas da Amazônia e nacionais, os ditos garimpeiros. Mas, governos sempre doentes são piores que nós Lula, lentos, preguiçosos e até letárgicos; se deixando de lado outras coisinhas…
Dados publicados dão ao país milhões de informais, mas nem essa expressão a nós é conferida, somos ilegais. E na gigantesca ambição às jazidas ocupadas, utilizam da “maldosa inocência” dos tutores em cargos de poderes, para ganharem a opinião pública, em consolidação de projetos dos assaltos almejados, chegando a tacharem a atividade de narco-garimpo. Lula, infâmia e vilania. Presidente, procure nos escaninhos e arquivos da Polícia Federal se já existiu vínculo delituoso de garimpo a narcotráfico.
Por sinal, esse empenho repressivo e demolidor que têm dado ao extrativismo amazônico, se no combate ao narcotráfico já o teria liquidado. Imagino não serem tão hostis a eles por não existirem minas de ouro ou outras ambições baixo ao manto deles.
Não torne a sociedade nervosa como nos dois estamos por causa das “doires”. E mais, “tô” aqui aguardando para entrar em processo de cirurgia, mas vou ver primeiro o que vai acontecer com você, aí estarei dentro. Temos saúde lascadas, mas cabeças, ambas, boas, espero…Um abraço e espero que o médico acerte com mão e cuidados.
Faça não só a Janja feliz e satisfeita, mas também a todos nós dessa Nação. Merecemos.
BH/Macapá, 30 de julho de 2023
José Altino Machado