O celibato do coronel Ataíde foi pro brejo no dia em que, arrastado por um amigo que tocava viola de ouvido, foi assistir um interminável recital de piano no auditório do Conservatório Carlos Gomes. Encantou-se com a menina Laurentina, cujo pai era coletor de impostos na cidade de Soure, do lado de lá do rio Paracauari, lindeiro com Salvaterra, chamada pelos sourenses de “país vizinho”.
O coronel não entendia nada do que estava sendo executado, mas gabava-se de entender de mulher. – “E como!”, blasonava. Apontou deseducadamente Laurentina e falou pro violista:- “Vou casar com ela.”
Casou. Um partido como o coronel Ataíde não era coisa para um coletor de impostos desprezar. Com grande pompa, casaram. Tiveram onze filhos em rápida sucessão. Primeiro ele, dois meses depois, a mulher. Morreram logo após a comemoração das bodas de ouro, cercados de numerosa prole. Dormem juntos o sono eterno no jazigo da família no Cemitério de Santa Izabel.
O tenente da Marinha Americana Steve MacBain era copiloto em um bombardeiro de mergulho no porta-aviões USS Enterprise no início de junho de 1942. Foram lançados para atacar a esquadra japonesa na Batalha Naval de Midway. O aeroplano de MacBain, um Corsair F4U, fez-se ao ar e se lançou contra o porta-aviões japonês Hyriu, um dos quatro que integravam a poderosa força de ataque nipônica. O fogo cerrado da artilharia do Hyriu abateu a aeronave de MacBain. O piloto foi morto pela metralha japonesa e o avião, antes mesmo de poder lançar seu torpedo, mergulhou nas águas geladas do Mar de Coral.
MacBain foi resgatado e levado para bordo de uma das belonaves americanas. Sofrera ferimentos leves. Ganhou uma condecoração e uma licença de dez dias em casa.
Durante a licença, Steve conheceu Deborah, atendente da United Airlines. Ao ver aquela bonita ruiva, Steve disparou o convite:- “Largue o que está fazendo e venha viajar comigo. Tenho uma licença de dez dias e quero vivê-la com você antes de viajar de volta para a guerra.”
Décadas depois da guerra, Steve MacBain deixara a farda. Ele e sua esposa Deborah já haviam servido em vários lugares do mundo, com Steve oficialmente trabalhando na divulgação da cultura norteamericana como adido nos quadros do USIS – United States Information Service.
O casal não teve filhos. Passavam boas temporadas navegando em seu veleiro de dois mastros, o “Tradewind”. Estavam velejando nas costas da Bahia ao serem surpreendidos por uma violenta tempestade. Nem o barco, nem o casal tripulante, foram jamais encontrados.
Fuad Abugraby chegou no Brasil na terceira classe de um navio. Deixara o Líbano para tentar fazer fortuna no Novo Mundo. Fuad estabeleceu-se em Belém do Pará. Fez considerável fortuna com duas fábricas: uma, onde produzia vassoura; outra, industrializando tucupi.
Fuad casou com a filha de um comerciante português. Mulher bruta e autoritária, chegada ao luxo, deu à luz dois filhos a quem desde cedo educou para que desprezassem o pai. – “Não quero vocês se comportando como esse velho turco”, dizia.
Dona Messody casara com um árabe que a maltratava regularmente. Messody era fiel, mas tremendamente infeliz. O vizinho Fuad sempre a cumprimentava com respeito e cortesia, embora só se dissessem “bom dia, dona Messody”, “bom dia, seu Fuad”.
Cansado com a grosseria da mulher, Fuad, um fim de tarde, chegou do trabalho. Jogou na mesa as chaves do carro, da casa, das fábricas. Despediu-se da mulher, dizendo-lhe, sem nem mesmo olhar para os dois filhos:- “Toma. Tá tudo aí pra vocês, Tou indo embora.” – “Pra onde, homem?”. – “Vou ser feliz.”
-”Boa tarde, dona Messody. Eu sempre amei muito a senhora. Pegue uma muda de roupas e venha comigo. Vamos ser felizes.”
Tempos depois, o casal morando numa granja modesta na estrada para Vigia, um visitante perguntou a Fuad:- “E o senhor, nunca tentou recuperar a fortuna que deixou com a portuguesa? Morando aqui na pobreza com dona Messody, o senhor se considera um homem feliz?”
“Se eu sou feliz? Corre, dona Messody! Nosso amigo tá preguntando se nós é feliz!” – E tomou dona Messody nos braços, rodopiando numa valsa a cantar:- “Eu sou feliz! Eu sou feliz!” – O visitante, ao ver os dançarinos, não conseguiu conter as lágrimas.
Paulinho conheceu Celina numa balada no Rio. Ele, dono de uma microempresa de instalação e conserto de ar condicionado. Ela, formada em Desenho Industrial pela Estácio, trabalhava como gerente numa fábrica de bolsas. Começaram como “ficantes”. Com algum tempo, já moravam juntos num dois quartos em Botafogo.
No começo, tudo bem. Antes da pandemia, Paulinho, como bom carioca, não dispensava a roda de chope com a galera. Deu de chegar tarde em casa. Começou a trair Celina com garotas que trabalhavam em lojas e que se deixavam levar pela cantada do rapaz.
Celina soube. Na primeira de copas, plantou um belo par de chifres no companheiro com a alegre ajuda do melhor amigo dele. Deu conhecimento do caso ao chifrado e voltou para sua casinha na Ladeira dos Tabajaras, em Copacabana.
Veio a pandemia. Paulinho, atleta, mensalista de academia, peladeiro no Aterro do Flamengo, achou que nunca iria pegar “esse tal de corona virus”. Pegou, e pegou brabo. Morreu. Foi enterrado sem que ninguém pudesse ter ido levá-lo ao cemitério.
Quando Celina soube que Paulinho morrera com a Covid 19, sacudiu com desdém o ombro esquerdo e disparou:- “Morreu? Morreu! Antes ele do que eu…”
Rui Guilherme
Juiz de Direito e Escritor.