É bom que se diga que essa tradição foi criada pelo mercado para satisfazer egos de governantes que não se contentavam em produzir qualquer coisa que pudesse impactar no início da gestão. Para quem conhece o setor público, sabe que em cem dias ainda há o forte cheiro das práticas do gestor anterior. Mesmo as necessidades mais emergenciais têm o sacrifício do tempo em seu desfavor e, não raras vezes, se submetem a práticas administrativas perpetradas ao arrepio das normas, ferindo o princípio da legalidade, vale dizer, o governante queima na largada. O agir desatento do administrador pode levá-lo ao cadafalso.
Esse ano, dentro da tradição presidencialista, foi feita pelo Brasil inteiro avaliações e divulgações de pesquisa dos cem dias de gestão do presidente da república e dos governadores. Houve delírios e decepções diante dos chutes como método de avaliação. Ora, se para o próprio gestor, diante de tantas ferramentas, é difícil fixar indicadores confiáveis para saber do desempenho de seu governo, muito mais difícil ainda é para o cidadão comum que, interceptado por um pesquisador, é indagado se aprova ou desaprova o governo que faz cem dias de gestão. Sua resposta, nem com grande esforço, pode se fiel ao que verdadeiramente está ocorrendo no exercício da gestão que é chamado a avaliar.
Cem dias de gestão – quando muito – pode avaliar quais equipes já estão com a mão na massa planejando o grande percurso que terão que percorrer no curso do mandato. Idalberto Chiavenato, lembrando Kurt Lewin, alerta que “nada é mais prático do que uma boa teoria” lecionando que “para que o administrador tenha condições pessoais de sucesso em qualquer organização – independentemente do nível hierárquico ou da área de atuação profissional – além do seu Know-how, precisa também e, principalmente, de habilidades pessoais de diagnóstico e de avaliação situacional, para ajudá-lo a discernir o que fazer diante de situações diferentes e imprecisas”. Isso não se faz em cem dias na base do chute!