Mas, será que as pessoas percebem que os políticos não geram empregos para que elas precisem das cestas básicas? Será que as pessoas percebem que os que estão no poder enganam o povo para se reelegerem ou elegerem alguém do seu grupo?
• Vocês que estão lendo minha pergunta poderão pensar: “Mas Marcos, preste atenção, neste último mês, em várias cidades brasileiras assistimos abertura de ruas, asfaltamento, construção de conjuntos habitacionais, de parques, de praças e outras obras. Atente para o fato de que “nossa cidade virou um canteiro de obras”.
• Certo, concordo com vocês. Então, raciocinem comigo, vamos fazer uma análise. Essas obras oferecem oportunidade de trabalho e impulsionam candidaturas diversas daqueles que estão à frente da administração. Primeiro, porque oferecem oportunidade de moradias para a classe média baixa; depois, porque geram oportunidade de trabalho, especialmente para os mais humildes, as chamadas classes “c”, “d” e “e”. Então, são boas para a sociedade.
• Com elas, fica assegurado o alimento, o “boião”, como ao almoço/jantar se referem muitos trabalhadores da construção civil. Além de bancar a alimentação, o dinheiro movimenta a economia das classes menos abastadas, pois, não apenas o “churrasco de gato” é pago com ele, mas, também o deslocamento para os locais de trabalho, especialmente, através do “mototáxi”, transporte campeão nas estatísticas das ortopedias nos hospitais da rede pública
• A questão é quem de fato são os beneficiários destas obras às vésperas das eleições? Os beneficiários dessas construções não são a gente humilde, o trabalhador, o desempregado, como pode parecer à primeira vista, mas os políticos.
• Na prática, as obras geram apenas empregos temporários. São apartamentos necessários, mas somente acessíveis a quem tem um emprego mais bem remunerado e, mesmo assim, tornam o comprador refém de banqueiros agiotas para o resto da vida, porque, em resumo, o pagamento do aluguel é trocado por parcela de financiamento eterno.
• As pessoas na sua angústia diária pela sobrevivência, pelo pão nosso de cada dia, não percebem que falta estrutura básica, falta um projeto para realmente trazer condições de trabalho permanente, educação, saúde para o povo.
• Quando falamos de estrutura básica, estamos nos referindo, por exemplo, a empregos permanentes, a serviços como saneamento básico, esgoto sanitário e água tratada, que comprovamos na prática que não são ofertados. E esses serviços públicos são essenciais para prevenir boa saúde.
• Na ausência deles, que significa a ausência de água tratada, de esgoto sanitário, não aquela água marrom, suja, quando não ausente, nas torneiras ou aquelas valas de esgoto a céu aberto, as doenças proliferam.
• Como a ausência de tais serviços é uma realidade aqui nas cidades do Amapá, o tratamento de doenças é mais que necessário, é essencial, pois as doenças decorrentes da falta de água tratada e esgoto sanitário matam. Matam desde a tenra idade até adultos e idosos. Prova disso pode ser encontrada em reportagem de Cabrini, que afirma haver registro no hospital infantil de Macapá de que morre uma criança a cada dois dias.
• Além desse lado mais tenebroso, há outros problemas. O bem-humorado povo amapaense costuma dizer que, no verão, em Macapá o termômetro marca apenas dois graus acima da temperatura do inferno. Então, imaginem o desconforto de não poder escovar os dentes ou banhar-se numa das cidades mais quentes do Brasil.
• A falta de água, a atual, está ocorrendo cerca de um ano após o “apagão de energia”, que atingiu o Amapá e ficou conhecido nacionalmente como um dos mais prolongados do Brasil.
• Vocês devem estar lembrados que entre o apagão de luz e o outro, de água, foram vendidas ou privatizadas as companhias de distribuição de energia e a geradora e distribuidora de água (não)tratada. Essa operação, certamente, fará com que a maioria dos moradores desempregados sejam obrigados a tomar água do Rio Amazonas e a consumirem luz de velas ou lamparinas a querosene, como alternativa à escuridão, que se estabelece no momento em que as facções se apresentam para cobrar seus tributos ou negociar seus produtos aos desavisados.
• A pergunta óbvia é por que os brasileiros daqui não percebem que tudo que se relaciona a serviços básicos e oferta de oportunidade de trabalho somente são produzidos às vésperas de eleições e sempre são produtos e serviços transitórios, temporários ou com prazo de validade até a data da eleição?
• A resposta óbvia é que são produtos e serviços para eleger as mesmas pessoas que já representam o povo, aqueles que já estão no poder, e manter a população sem serviços públicos, sem emprego permanente, alimentando-a com cestas básicas até a próxima eleição.
• A esperança reside na compreensão de que a governança está nas mãos dos que serão eleitos e que a decisão está em nossas mãos, ou melhor, em nossos dedos: digitar o número do que compra nosso voto – seja com dinheiro vivo, favores, cargos ou qualquer outro benefício pessoal – ou digitar o número daquele que pode melhorar seu futuro e de sua família com uma ação eficiente e voltada para resolver os problemas da sociedade, essa a questão. Em outubro de 2022 saberemos se tudo fica como está ou se a esperança renasce. Tudo depende de nós eleitores.