Qualquer devoto da Virgem de Nazaré tem uma história de fé para se auto comover e para comover seus interlocutores. Quem escuta essas narrativas de curas e devoção não há como não se inclinar a experimentá-las. Há uma conexão imediata com que o paraense vivencia todos os anos como partilha de fé intensa que impõe a cada um a experimentação individual. Capta-se a fé dessa manifestação religiosa em cada ambiente do paraense nesse período como algo intrínseco ao fenômeno. Traduz-se como uma sensação de levitação impulsiva e involuntária como a que viveu São Benedito.
Este ano, o Círio abrigará a dor e a alegria co-pandêmica. Já haverá uma certa liberdade na manifestação para se ter o sabor transcendental da fé, sem a procissão gigantesca, é claro, mas com alguma liberdade de locomoção para o exercício pleno da fé. Há de se crer que a emoção será exponencial. Milhares agradecerão a vida por haverem sobrevivido ao flagelo da pandemia. Outros, celebrarão suas perdas familiares com a mesma tenacidade com que se celebra a vida. No período do Círio não há espaço para lamentações. Há um clima de encontro supremo com o Criador propiciado pela intercessão da Virgem de Nazaré.
A vida do paraense transforma-se com o Círio. Há uma catarse coletiva e um pendor inexorável para suspender ou esquecer todos os conflitos e dificuldades existentes. Firma-se a fé como ato incontrolável e necessário. É, de fato, uma experiência divina. Como bem ressaltou Heráclito que o homem ao banhar-se no rio ao sair já não é mais o mesmo, assim também é o romeiro com o fenômeno no mergulho da fé profunda que o Círio de Nazaré propicia. Há uma experiência contida, supõe-se, da mesma sensação do Centurião ao buscar a cura do seu ser servo ou do cego de Jericó ao buscar a luz, histórias bíblicas que não só comovem como assentam o entendimento de que a fé é a grande lição que Cristo deixou entre nós para compreensão de seu mistério. Que a Virgem de Nazaré, neste momento, nos traga a sensação esplêndida de dialogar com Deus por sua diáfana intercessão.