Amazônia é uma palavra com vários significados. Dependendo da imagem que cada um tenha na mente, pode nos fazer associação com floresta, rio, região distante, um Estado da Federação, povos indígenas, a queimada, à local inóspito, riqueza, fronteiras, Soberania, aos bichos etc
Símbolos… O símbolo não é exatamente o complexo conteúdo que representa. Alguns pensam na Amazônia quando veem a imagem de uma árvore queimada, mesmo que esta esteja na Califórnia. Outros pensam na Amazônia quando veem animais mortos, mesmo que sejam os africanos elefantes, leopardos, hipopótamos ou rinocerontes.
A imagem que ganhou o mundo hoje é ainda fruto do imaginário distorcido.
A Amazônia é e estava plena lá desde antes do Descobrimento e das narrativas dos viajantes e degredados que de início para cá vieram, mas não foi assim que nos contaram.
Ganhou o mundo a tão simbólica imagem da grande floresta selvagem e não subjugável. O lugar distante, que outrora se viu como objetivo a ser conquistado, domado, servindo ao progresso e ao homem e que hoje é visto como o local a ser preservado a qualquer custo.
Os mitos sobrevivem, se misturam a outras imagens e a deturpadas conclusões, como a tese estrangeira de que o Rio Amazonas não passava de um afluente do norte-americano Rio Mississipi, isso ao tempo em que Dom Pedro II e o Barão de Mauá, criando a Companhia de Navegação do Amazonas, enfrentavam as ameaças à Soberania brasileira na região.
Apesar disso, 70 mil sementes da borracha foram daqui contrabandeadas para o Oriente pelo inglês Henry Wickham, originando produção por menor preço para os mercados consumidores, até que, no fim da 2ª Guerra Mundial, como o Japão ocupou a região asiática que a produzia, o olhar mundial se voltou novamente para o produto nativo da Amazônia.
A economia e a máquina de guerra dependiam da borracha e buscaram envolvimento com o Governo Vargas para a aquisição da borracha natural. Com crescente interesse nos assuntos ligados à Região Amazônica, projetos foram apresentados, alguns por pesquisas nas águas amazônicas e sem que houvesse sequer a participação de brasileiros.
Parece que o olhar estrangeiro ainda permanece no sentido de que não somos capazes de administrar todo o nosso potencial e de que necessitaríamos de um tipo de liderança e tutela, como se nos vissem como quem admira alguém que deva ser tutelado.
Essa postura também é alimentada pelo brilho no olhar de quem persegue tesouros lendários, num misto de lendas e mitos e estórias tortas, se moldando em amálgama única de permanente obsessão pela riqueza fácil e pela lenda em torno do lago Parimã e do mito de que as suas águas seriam a fonte da juventude.
Essa complexa imagem ainda foi mais manipulada, em filmes, fotografias e programas de TV. Aliás, parte do imaginário foi alimentado pelo greco-americano que, apelidado como o Tarzan da Amazônia, ganhou espaço na mídia, segurando imensa Jiboia e fazendo outras proezas até que, em 1988, fosse preso em Tarpon Spring, Flórida, por transportar em navio 4 toneladas de cocaína dentro de milhares de tábuas de nobres madeiras amazônicas. A inocente floresta que se espalha por vários países se macula, se associando a fatos assim…
Os sonhos de dominação da Amazônia provocam delírios conforme se toma consciência da riqueza imensurável que possui. E essa cobiça reinterpreta lendas e mitos e novamente distorce a realidade, permitindo que outros se autoatribuam qualidades superiores e se considerem mais aptos a “salvar” a floresta amazônica… esquecem-se, porém, do quanto já destruíram os seus originais recursos florestais e do quanto contribuíram para a destruição ou transformação de outras regiões do Globo, com suas ações expansionistas e exploratórias, como ocorre em países africanos e em outras regiões.
Aliás, mesmo em áreas urbanas, o Brasil possui as maiores florestas do mundo – e nas suas maiores cidades – como o Parque Estadual da Pedra Branca e a Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro e o Parque da Cantareira, em São Paulo (uma 5 cidades mais populosas da Terra).
É preciso que se equilibre a visão romântica sobre a Amazônia a ser desbravada e protegida e cuidada por terceiros, que se colocam no papel das inocentes Virgens Vestais da antiga Roma, às quais se incumbia o papel de manter aceso o fogo do templo que garantiria a paz. Só que, nesse caso, forçar atribuir à Amazônia um papel de templo sagrado e intocável da humanidade não equivale à realidade e ainda afeta o livre, pleno e natural exercício da Soberania de várias nações da América do Sul. Deve-se respeitar a livre determinação dos povos e que cada um cuide bem da porção de floresta existente em seu território: não há um xerife do mundo.
Chegamos a um momento em que a vida cobra o seu preço, que os riscos poluidores antes assumidos não mais são suportados, que megacorporações poluidoras devem pagar por danos ambientais, que governos não podem deixar de zelar pelo meio ambiente e de que o Mundo não tem uma lixeira onde jogar os desejos e supérfluos que produzimos e consumimos. Moramos no Mundo que é a nossa casa, a fonte do nosso ar e alimentos e a “nossa lixeira”, tudo ao mesmo tempo.
Depois que megaempresas e seus governos destruíram tantas áreas naturais no mundo, acham que melhor podem traçar os destinos de terceiros? Lembremo-nos de que os EUA apenas agora assinaram o Acordo do Clima que, dentre outros aspectos, visa redução das emissões de gases do efeito estufa. Curioso que ao fazê-lo, já se coloca no papel de poder atribuir represálias a quem não o cumprir. Meio como o último passageiro que entra no ônibus e quer se sentar na janela.
Em verdade, tanto a Europa e os EUA veem-se em situação delicada, pois dados recentes apontam que a China mantém positivo o seu PIB e caminha para logo se tornar a maior potência econômica do mundo. A economia não para, a história é cíclica e o mundo dá voltas. O vigor da subida é proporcional ao tamanho da queda e, neste rumo, a geopolítica deve levar outros a mais tentar se imiscuir nas questões nacionais, seja na economia interna, no domínio sobre as florestas – que em trechos adotam – e no fomento de empréstimos e endividamentos, como forma de fidelização dos países devedores.
Por outro lado, os olhos cegos pelo lucro não percebem que o comércio exige equilíbrio entre as partes. Para se vender, deve-se comprar e para se exportar, deve-se importar. E, se mais se paga por aquilo que mais se deseja, não é o comprador que faz o preço.
Quem fez o preço quando precisávamos comprar trigo ou petróleo? Nós? Certamente que não. Não se preocuparam se roubaram o futuro dos bebês brasileiros que nasceram enquanto iluminavam a Cidade Luz ou a Times Square…
O real e verdadeiramente sólido potencial do Brasil para alimentar o mundo e cobrar por isso assusta os atuais diretores do teatro global. Independentemente de crises ou preços, temos inegáveis valores absolutos: florestas e matas preservadas, a potência da nossa produção agropecuária, a boa qualidade das nossas vastas terras e o clima invejável. Que cuidemos disso e que até cobremos de outros pelo ar puro que nossas preservadas matas produzem, invertendo a lógica de quando nos impuseram produtos decorrentes de atividades altamente poluentes e que mortificaram regiões no planeta. Que o Brasil saiba se autovalorizar e se impor, atribuindo o mais alto valor ao nosso rico potencial para alimentar a humanidade – e, claro, cobrar caro por isso.