Desde a infância, os brasileiros são frequentemente convidados a participar de jogos lúdicos que estimulam a atenção aos detalhes, como o famoso “jogo dos erros”. Embora esse tipo de atividade tenha um propósito educacional, como aprimorar a percepção visual e o foco, ele semeia um padrão de pensamento que, em longo prazo, se torna prejudicial à sociedade. Ao invés de desenvolver a capacidade de observar a realidade de forma holística e construtiva, muitos passam a se especializar na busca por falhas. Esse olhar voltado para o erro, com o tempo, permeia todas as áreas da vida, especialmente no campo político, onde se transforma em uma ferramenta de polarização e confronto, muitas vezes em detrimento da análise objetiva e da busca por soluções.
No cenário político atual do Brasil, esse comportamento se manifesta de maneira explícita. O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por exemplo, é alvo constante de críticas e acusações focadas em erros supostos ou reais, muitas vezes deixando de lado os aspectos positivos ou as medidas eficazes adotadas. De acordo com o filósofo e sociólogo Zygmunt Bauman, a sociedade contemporânea, marcada pela liquidez das relações e pela busca incessante por falhas, tende a se concentrar no que está errado, o que dificulta o diálogo construtivo e a solução de problemas. Para Bauman, a obsessão por apontar erros cria uma sociedade incapaz de enxergar o todo, prejudicando o desenvolvimento coletivo e a cooperação.
Além disso, a constante polarização política amplifica essa mentalidade. Em vez de se engajar em um debate democrático e produtivo, os adversários se dedicam a desqualificar o oponente, focando exclusivamente nas falhas e fraquezas, como um jogo onde vencer significa apenas apontar o erro. A historiadora e filósofa Martha Nussbaum, em seu trabalho sobre ética e política, alerta que esse tipo de mentalidade enfraquece a capacidade de julgamento imparcial e a empatia, essenciais para o bom funcionamento das democracias. Em um cenário em que os erros são mais importantes do que as soluções, o diálogo construtivo se torna uma raridade, e a capacidade de construir consenso diminui.
No contexto brasileiro, essa tendência se agrava ainda mais em um momento de intensas divisões políticas. A cultura de criticar constantemente o governo e seus líderes, sem dar atenção ao positivo ou ao debate propositivo, cria um ciclo vicioso de desconfiança e estagnação. Em vez de buscar alternativas e soluções, a política brasileira se vê presa em uma lógica de confrontação onde o erro é o único ponto de foco. Essa dinâmica não só fragiliza o sistema político, mas também distorce a realidade, transformando a crítica em um fim em si mesma. Para que o Brasil avance, é necessário romper com a cultura do “jogo dos erros” e adotar uma postura mais construtiva, onde a crítica seja acompanhada de propostas e, acima de tudo, da valorização do que pode ser feito para melhorar o país.
A cultura do Jogo dos erros e sua dimensão política
