Talvez esse artigo seja ainda mais pessoal que qualquer outro. Um bate-papo, talvez? Andei pensando um pouco sobre o tempo, da vida mesmo. Como a gente compara a nossa jornada com a dos outros e sobre como temos medo do tempo.
Outro dia, no Rio Innovation Week, assisti a palestra da Thais Farage com o Michel Alcoforado e outros convidados. Eles falaram sobre o consumo ser ligado ao sonho. Refleti sobre isso, li algumas coisas e a verdade é mesmo que a gente consome porque a gente sonha. Se não sustentarmos a ideia do amanhã, paramos de perseverar a nossa existência, de projetar o futuro, de persistir em algo maior que nós mesmos.
Consumimos não apenas para satisfazer uma necessidade do agora, mas para alimentar um desejo de futuro. Quando compramos algo e investimos tempo, energia ou dinheiro, estamos sustentando a ideia de que existirá um amanhã.
Falo nisso porque percebo que, num geral, ao mesmo tempo em que sonhamos com o amanhã, temos medo dele: de dar errado, de escassez, de incertezas, de perdas… Contudo, penso que é na incerteza que mora a esperança.
Quero dizer: se o amanhã fosse certo, já conhecido, não existiria espaço para a esperança. Ela só existe porque o futuro é incerto. A incerteza, no fundo, é um terreno fértil, onde cabem os medos e os sonhos, juntos.
Não imaginava chegar aos 27 com a vida como está, esperava muito mais de mim e da minha trajetória. Porém, não esperava, aos 10 anos, quando idealizei o meu futuro, que viveria em um momento de colapso climático, que sobreviveria a uma pandemia, que passaria por crises econômicas e tantas outras coisas que ninguém imaginaria…
Carregar essas frustrações não é apenas algo meu e entendo isso. Nós passamos por muitas coisas juntos. Eu, daqui; você, daí. O nosso tempo presente é instável. Vivemos em uma época muito acelerada, com muitas mudanças… É natural que os sonhos que nasceram na infância e cresceram com a gente não consigam brechas para se realizar.
A minha geração é muito ansiosa, muito depressiva. Por esses e outros motivos, claro. Temos mesmo muitos medos, pensamos sobre o tempo escorrer por entre os nossos dedos, sobre envelhecer, sobre querer mais do que podemos, sobre imaginar o impossível num mundo em que se fala muito que “tudo é possível”. Vivemos em um mundo em que vendem fé à prestações, charlatões enganam pessoas aos montes nas redes sociais, influenciadores fazem dinheiro usando a imagem de crianças, dormir virou mais um nicho de performance…
Nos comparamos muito, vemos vidas perfeitas sendo performadas nas redes sociais, nas novelas, nas séries, pensamos que precisamos ter pressa, que estamos atrasados, que tem muita gente à frente…
Em novembro de 2023, escrevi um texto no Instagram que dizia que “o nosso modo tão automático de vida não deixa a gente sentir o gosto do tempo. Parece que ele tá sempre prestes a acabar e que não vai dar tempo da gente chegar. Então eu me pergunto: chegar aonde? Pra onde a gente tá indo tão depressa?”
Me seguro nisso, respiro e falo para os meus amigos que a gente não precisa ter todas as respostas agora. A gente constrói a vida enquanto caminha. O mais importante desse papo eu acho que é: o amanhã é uma eterna construção de muitos ‘hojes’ e se me decepciono, de certa forma, é porque não deixei de sonhar. Acredito, de verdade, que a vida exige que a gente se reinvente, que a gente dance entre os imprevistos, imagine novas possibilidades para o futuro que nem sabemos se vai chegar.
Ter certeza de que tudo vai dar errado, te impede de desejar. Ter certeza de que tudo vai dar certo, te impede de lutar. A dúvida cria impulso de vida, cria energia, cria desejo de arriscar.
A gente sonha com uma vida melhor, com uma casa melhor, com mais segurança, com mais saúde, com mais prazer, com mais conforto, com mais estabilidade, com mais educação, com mais felicidade, com mais igualdade… A gente projeta os nossos desejos, imagina o que nos faria feliz, o que deixaria o mundo melhor, mesmo que sejam ideias utópicas.
O sonho move o que consumimos e é nele que mora a esperança desse acreditar. É no acontecer da vida, que a vida acontece. É no percurso que a gente entende aonde quer chegar. É refazendo as rotas, recalculando os mapas, retraçando os trajetos… Aquela famosa frase do Mário Quintana que meu pai tem em seu escritório: ‘“são os passos que fazem os caminhos”.
Em “O corpo encantado das ruas”, Simas diz que “o mistério não é sair da zona de conforto, local em que nem entrei, mas saber viver no conforto da zona. A miudeza do cotidiano, em que a vida não para, é o que ainda me salva.”
Me lembro que teve um concurso literário na escola na qual estudava, há muitos anos! Eu devia ter uns 15 anos na época e jamais imaginei participar, não me achava boa, apesar de gostar de escrever e saber organizar bem as ideias. Me sentia insegura, não me sentia preparada, mas acabei me inscrevendo no último dia possível. O meu codinome era “esperança”. Ganhei em primeiro lugar.
Depois de 11 anos, estou aqui, escrevendo profissionalmente, como colunista de um jornal. Como diria Simas: esse negócio de ver a vida acontecendo com tamanha força é arrasador.