Todo casal tem uma história marcante do começo do casamento. Alguns lembram da lua de mel em uma praia paradisíaca. Outros recordam o primeiro apartamento, todo arrumadinho.
Eu lembro da ponte.
Logo depois que nos casamos, fomos morar em um casebre de madeira construído em uma área alagada. A casa parecia ter sido erguida depois que alguém olhou para o brejo e pensou: “É aqui mesmo.”
Para chegar até ela, existia uma ponte estreita de madeira. Estreita mesmo. Tão estreita que duas pessoas não conseguiam caminhar lado a lado. Se um espirrasse, o outro caía na água.
Durante o verão amazônico, tudo parecia relativamente normal. Mas bastava o inverno chegar para o cenário virar filme de suspense.
Numa certa noite, voltávamos para casa debaixo de uma chuva daquelas que só quem mora no Norte conhece. Chuva de lavar telhado, quintal, cachorro, galinha e até os pecados da vizinhança.
Quando chegamos à ponte, o lago tinha engolido boa parte do caminho.
A água passava bem acima dos joelhos.
Foi nesse momento que meu cérebro resolveu lembrar de um detalhe importantíssimo: eu morria de medo de cobra.
Na minha imaginação, cada pedaço de galho boiando era uma sucuri de oito metros esperando apenas minha canela.
Meu ex-marido tentava manter a calma.
— Vamos! Anda logo!
Mas eu não andava.
Empacava.
Empacava igual pangaré velho.
Ele empurrava de um lado.
Eu travava do outro.
— Mulher, não tem cobra nenhuma!
— E se tiver?
— Não tem!
— Mas… e se resolver aparecer justamente agora?
Cada passo era uma negociação.
Acho que ele carregou mais o meu medo do que o próprio corpo naquela noite.
Depois de uma eternidade — ou uns quinze minutos, que pareceram três horas — finalmente conseguimos chegar ao casebre.
Entramos ensopados.
Eu tremendo.
Ele exausto.
O pobre coitado só queria uma cama.
Como bons nortistas, dormíamos protegidos por um mosquiteiro. Ele deitou, fechou os olhos e adormeceu com uma velocidade impressionante. Acho que, se a casa desabasse, ele continuaria dormindo.
Enquanto isso, eu ainda estava tentando convencer meu coração a diminuir o ritmo.
Troquei de roupa.
Acendi uma vela.
A casa tinha apenas uma lâmpada e enormes frestas entre as tábuas de madeira. O escuro sempre me assustou mais do que deveria.
Deitei ao lado dele, deixando a vela acesa.
Fiquei olhando para o mosquiteiro.
Sem coragem de fechar os olhos.
Pensando nas cobras.
Nas histórias que ouvia desde criança.
Nos barulhos da chuva.
Até que o sono venceu.
Não faço ideia de quanto tempo passou.
Só sei que, de repente, senti o mosquiteiro afundar bem acima da minha cabeça.
Abri os olhos.
E lá estava ela.
Uma aranha-caranguejeira.
Os especialistas dizem que elas podem chegar a uns trinta centímetros e pesar pouco mais de cem gramas.
Pois permitam-me discordar.
Aquela tinha, no mínimo, o tamanho de um cachorro de porte médio.
Olhava para mim como se estivesse avaliando qual parte começaria a comer primeiro.
Soltei um grito tão alto que, até hoje, acredito que metade da vizinhança acordou.
Meu ex-marido levantou num pulo.
Na verdade, levantou tão rápido que quase caiu da cama enrolado no próprio mosquiteiro.
Sem entender absolutamente nada, perguntava:
— O que foi? O que aconteceu?
Eu não conseguia responder.
Só apontava para o teto, com a dignidade abandonando meu corpo.
Ele olhou.
Respirou fundo.
Pegou alguma coisa que nem lembro o que era.
E, depois de alguns minutos que pareceram uma eternidade, conseguiu expulsar a visitante indesejada.
Missão cumprida.
Problema resolvido.
Ou quase.
Porque dormir…
Dormir ninguém conseguiu mais.
Passamos o resto da madrugada sentados, olhando para o teto, para as paredes, para as frestas, para o chão e até para o mosquiteiro, desconfiando de tudo.
A cada sombra, eu jurava que outra aranha estava chegando.
A cada estalo da madeira, imaginava uma cobra pedindo licença para entrar.
Quando o sol finalmente apareceu, nunca fiquei tão feliz em ver amanhecer.
Hoje, olhando para trás, dou boas risadas dessa história.
Naquela época, achei que sobreviver à enchente, às cobras imaginárias e àquela caranguejeira gigante era uma missão impossível.
Descobri, anos depois, que casamento também é isso.
Às vezes, a gente atravessa enchentes, enfrenta medos absurdos, divide um casebre cheio de frestas e até aprende que o amor também mora nas pequenas cenas do cotidiano.
Mesmo quando uma aranha decide participar da história sem ser convidada.
A ponte, as cobras e a caranguejeira

