Há alguns dias, uns alunos, do ensino médio, me pediram para eu falar algo sobre a consciência negra. Eram alunos estudiosos e bem interessados no assunto, um grupo formado por alunos negros e brancos. Perguntei a eles qual a razão de eu ter sido o escolhido para falar sobre um assunto que é mais voltado para professores de história ou de sociologia.
- Bem professor, alguns de nós assistimos a uma “Live” que você participou e achamos muito interessante a sua fala.
- Obrigado por terem assistido a essa “Live”. Realmente foi muito interessante. Disse-lhes eu.
- Vou começar explicando algo a vocês que para muitos foge um pouco do tema, mas que tem muito a ver com ele, pois explicará melhor onde eu quero chegar.
- Há uma área muito estudada no curso de Letras que se chama “Linguística, nela estudamos os signos linguísticos, os quais representam o Significado e o Significante. Ao ouvir a palavra “casa”, você pensará nas letras que a compõem (c-a-s-a) e nos fonemas que a representam (/k/ /a/ /s/ /a/). Isso é o significante. Ao mesmo tempo, a palavra “casa” permite que você recrie o conceito na sua memória sobre o que você sabe acerca de uma casa, ou seja, uma construção com portas e janelas, com cômodos diferentes. Isso é o significado.
Desta forma, quando ouvíamos a palavras negro, logo recriávamos o conceito de escravo, tronco, açoite, senzala etc. Esses conceitos não são verdadeiros e foram criados pelo colonizador. Todos nós, eu, seus pais, avós fomos contaminados por esse conceito errado e perverso, e hoje, muitos ainda conceituam pessoas de cor preta dessa forma, mas acredito que já mudou bastante. Saibam que o Negro não é escravo, ele foi escravizado pelos colonizadores. - Olhem como as coisas são engraçadas. Eu sou escritor e desejei escrever um poema homenageando o povo afro, etnia esta, na qual eu me enquadro, pois sou bisneto de escrava e indígena. Pois bem, eu o escrevi e quando terminei o poema, o achei lindo, forte e bem escrito, mas não percebi que eu o escrevi de acordo com a visão que eu tinha de Negro, que era a mesma imposta pelos colonizadores.
- Eu gostaria de recitá-lo a vocês.
- Vejo na noite tua cor, o negro aroma que teu cheiro exala, teu pranto sofrido e de dor regia a torpe canção da senzala. O som silencioso do teu pranto traz a magia que teu ser reluz, as marcas trazidas em teu tronco fazem do cruel açoite tua cruz. Nasces do ventre sofrido a liberdade vem a ti sorrir. Corres por entre os Palmares, tu negro, escravo, zumbi. Teu passado cruel e sofrido marcava a tua dor em cada presente. Buscavas de no futuro a liberdade para com ela quebrar tua corrente. Cantas a liberdade essa esperança que jamais morreu. Ouvirás hoje de muitos quisera negro ser eu.
Obrigado pelos aplausos e elogios, mas deixe-me falar-lhes algo. Mostrei para alguns amigos e eles acharam bonito forte e me parabenizaram pelo poema, assim como vocês o fizeram agora. Mas um amigo, que se chama Diniz, o qual é professor de história, me disse que realmente era muito bonito, forte, mas que eu poderia escrever o que, na verdade, caracteriza o negro. Nele(poema) há versos de dor, tristeza e solidão. Embora, algumas partes do poema o enalteçam, ele não representa o que realmente significa ser afrodescendente e nem as suas características. Confesso a vocês que fiquei triste e pensativo.
Mas uma experiência fez com que eu mudasse a minha visão, de vez, sobre o negro. Foi quando eu pedi para uma nativa de Guiné-Bissau, um país africano, chamada Milanka Macambu que traduzisse o poema Negro para o idioma deles: Crioulo. Ela aceitou. Comecei a recitar e quando chegou a palavra senzala ela olhou para mim e disse que não conhecia a palavra senzala, olhei surpreso para ela, expliquei o significado da palavra e ela me falou que desconhecia esse termo, pois em sua terra esse lugar não existia, como também, o seu povo não vivia como escravo e muito menos acorrentados.
Agradeci a ela e fui embora pensativo e lembrei do que seu amigo Diniz falou. Ele realmente estava certo: A escravidão não caracteriza o povo negro. Em 2021, uma artista e amiga negra que mora em Macapá, Laura do marabaixo, me pediu para eu escrever a letra de uma música com o título “É coisa de preto”. Já com uma visão totalmente diferente, eu escrevi o poema: É coisa de preto. - É coisa de preto ser puro e ser belo, é sorrir e ser forte e ver na pele e brilhar sua luz. É coisa de preto ter cores da África, ser reggae, ser Carolina de Jesus, ser Jamaica. É coisa de preto ter swing no pé, ter Blues entre os dedos e nas mãos o afoxé. É coisa de preto ser um povo bacana, ser Mandela, ser Obama, ser um rei, ser Pelé. É coisa de preto ser um povo assim liberdade na alma e cabelo pixaim. É coisa de preto ter orgulho na cor, é fazer parte da história e ser fruto do criador. É coisa de preto sim. Nesses versos estava o real significado do que é ser negro, a sua força e características.
Lembrem-se que há alguns poucos anos, houve um presidente que comparava negro a animais quando dizia que alguns quilombolas pesavam mais de 15 arrobas e quando lhe interrogado se seu filho se casasse com uma negra o que ele faria, logo ele respondeu: eu não corro esse risco porque meus filhos são bem-educados. Que coisa triste para um presidente de um país miscigenado, mais triste ainda é ver que alguns negros o apoiavam e não falaram nada contra a sua fala racista e preconceituosa. Porém quando esses negros foram chamados de capitães do mato, não gostaram e processaram quem os chamou, mas nada fizeram contra a fala racista e preconceituosa do Presidente. Logo percebi que de dia eles andavam pelos palácios e à noite se recolham a sua senzala interior, onde vivem aprisionados.
Porém muitos fizeram a sua auto abolição e conseguiram sair de suas senzalas interior e jogaram a chave fora e para lá, nunca mais voltaram. Eu sou uma dessas pessoas. - Saibam meus Nobres: Todo preconceito vem vestido de ignorância.
NEGRO SOUL
A minha pele é tão escura e reluzente.
A corrente que aprendia se quebrou.
Meu turbante é um ser livre e consciente
De alma afro sangue raça negro soul.
Não há gemidos espalhados nas Palmeiras.
Nem mais os gritos dessa dura solidão.
O opressor não vai calar mais nossa boca.
Nem maltratar o nosso corpo. meu irmão. (Jorge A. M. Maia)