A consagração da Universidade de Samba Boêmios do Laguinho como campeã do Carnaval 2026 no Amapá não representa apenas um título. Representa a consolidação de um projeto estético e intelectual raro no universo das agremiações carnavalescas, conduzido pelos enredistas Vicente Cruz e Híckaro Silva, que vêm inovando de forma consistente na concepção temática da escola. Ao levar para a avenida “Sodoma e Gomorra: do pecado à redenção”, a escola realizou uma releitura simbólica do relato bíblico do Antigo Testamento, afastando-se da moralização simplista para propor uma reflexão sobre o colapso ético das sociedades que substituem a alteridade pela tirania do desejo. A narrativa conduziu o público da decadência à reconstrução possível, reafirmando que nenhuma civilização está condenada quando assume responsabilidade coletiva. A grandiosidade plástica dialogou com o drama humano universal — queda, julgamento e esperança — demonstrando que o carnaval pode ser espetáculo, mas também pode ser pensamento em movimento.
No ano anterior, em 2025, a Boêmios já havia sinalizado esse caminho ao apresentar “O elogio da loucura”, inspirado na obra de Erasmo de Roterdã. A personificação da Loucura como narradora permitiu uma crítica humanista às estruturas de poder, à hipocrisia institucional e às máscaras sociais que atravessam séculos. O desfile dialogou com a tradição do riso crítico que, como lembraria Mikhail Bakhtin, subverte hierarquias e expõe verdades ocultas por meio do carnavalizado. Ao trazer para a avenida um texto fundamental do humanismo renascentista, a escola reafirmou que o enredo pode dialogar com a filosofia, com a teologia e com a política sem perder sua potência popular. A estética encantou, mas foi a densidade conceitual que consolidou a escola como vanguarda cultural na Amazônia.
Esse ciclo de enredos filosóficos reafirma uma tese defendida por intelectuais como Darcy Ribeiro: cultura popular não é sinônimo de simplificação, mas de elaboração simbólica profunda. Ao romper com a previsibilidade temática, a Boêmios amplia suas raízes sem abandoná-las. Não nega a tradição afro-brasileira do carnaval; expande-a ao incorporar narrativas universais sob a cadência do samba. Como sustenta o historiador Luiz Felipe de Alencastro ao tratar das matrizes culturais brasileiras, tradição não é repetição mecânica, mas reinvenção permanente. Nesse sentido, a escola inaugura um novo patamar narrativo no carnaval amapaense: o desfile como obra conceitual, capaz de provocar reflexão coletiva sem abrir mão da exuberância estética que caracteriza a festa.
Mais do que uma sequência bem-sucedida de enredos, o que se consolida é um projeto cultural de largo alcance. A avenida transforma-se em ágora pública; o público deixa de ser espectador passivo e torna-se interlocutor. Como já observou a antropóloga Lilia Schwarcz, as festas populares são espaços privilegiados de disputa simbólica e produção de sentidos sobre a sociedade. A Boêmios compreende essa dimensão e a eleva a outro nível ao assumir o samba como linguagem filosófica e instrumento de formação cultural. O Carnaval do Amapá ganha densidade, ganha debate e ganha protagonismo. Diante dessa trajetória de ousadia temática e maturidade artística, impõe-se a pergunta que já ecoa entre críticos, carnavalescos e intelectuais: o que trará a Boêmios no próximo carnaval?
Boêmios grande campeã com carnaval filosófico e de vanguarda temática

