Meu caro Carlos Lobato, teu ensaio “A Escrita Como Desobediência Estrutural” devolve à literatura sul-americana aquilo que a crítica domesticada o tentou arrancar: sua condição de instrumento cognitivo e político. Ao afirmar que o conhecimento neste continente nasce da experiência histórica da violência, do saque e da sobrevivência, colocas a palavra onde ela sempre esteve, mas que os centros hegemônicos tentaram ocultar: no campo de batalha. E foi contigo que aprendi (lembras das tuas lições nos bancos da faculdade?) que filosofia não é apenas amor abstrato ao saber, mas experiência concreta que traduz nossas mazelas, nossas contradições e nossas feridas abertas. Na América do Sul, escrever nunca foi um luxo, foi uma necessidade vital. Cada frase, cada poema, cada crônica que emerge da Amazônia, do Caribe, dos Andes ou do Prata, ou mesmo do meu Laguinho querido, carrega o peso de séculos de expropriação e a teimosia de povos que se recusaram a desaparecer. Tua leitura recusa o exotismo com que nos olharam e, ao fazê-lo, restitui à nossa literatura o estatuto de pensamento situado, que não se curva às métricas de Paris, Nova York ou Londres para validar sua existência.
Ao inscrever Neruda, García Márquez, Galeano e Jorge Amado como pilares de uma epistemologia própria, teu texto desmonta a ficção de que o Sul apenas reproduz ideias do Norte. Eles não foram apenas grandes escritores: foram cartógrafos de um continente esfacelado, capazes de traduzir em linguagem aquilo que a ciência colonial nunca quis ouvir. Neruda ensinou que a terra fala; García Márquez demonstrou que a história aqui é circular porque o poder se recicla; Galeano expôs que a pobreza é uma engenharia; e Jorge Amado provou que o povo é uma inteligência coletiva. Agudizando teu argumento, pode-se dizer que esses autores fizeram mais pela compreensão da América Latina do que muitas universidades: produziram uma teoria encarnada, que nasce do trabalho, do desejo, da fome e da alegria como resistência.
Teu contraste com Hemingway é particularmente revelador, porque evidencia que o privilégio da neutralidade estética é, na verdade, um luxo geopolítico. A literatura anglo-saxã pôde se dar ao direito do silêncio porque suas sociedades se beneficiaram da ordem que impuseram ao mundo. A nossa, não, cara-pálida (com todo respeito). Aqui, o texto sempre veio acompanhado de urgência, porque a realidade nunca nos concedeu a pausa necessária para contemplar sem tomar partido. O realismo mágico, como bem insinuas, não é fantasia: é método para narrar um mundo em que o absurdo é regra. A escrita sul-americana não exagera; ela apenas descreve com honestidade um sistema em permanente colapso, onde a exceção é a estabilidade.
Por isso, tua homenagem a Fernando Canto é mais que um gesto afetivo: é um ato político. Reconhecer um intelectual amazônida como produtor legítimo de teoria é desafiar a geografia do saber que insiste em nos empurrar para a periferia do pensamento. Pensar desde a margem, que bela metáfora, como afirmas, não é deficiência — é lucidez. A Amazônia, como tua escrita demonstra e Fernando Canto dizia, não é um cenário exótico, mas um laboratório histórico da modernidade violenta e um espaço de revoltados. E escrever, quando tudo conspira ao silêncio, é a forma mais sofisticada de insubordinação. Que tua carta à América do Sul siga sendo escrita com essa radicalidade serena: porque, enquanto houver palavra, a dominação jamais será completa. O resto – como dizes – é perfume, meu caro!
Carta ao Carlos Lobato

