O ar está pesado. Os ventos fortes trazem a tempestade. As nuvens de chuva pairam sobre as nossas cabeças e os primeiros pingos já são sentidos, enquanto os raios riscam os céus e os trovões fazem tudo tremer. Apesar disso, as pessoas continuam a colocar as roupas no varal, agindo como se nada estivesse acontecendo.
Estão insensíveis ou já perderam o encanto e a capacidade de resistir, como se estivessem sob o efeito de anestesia geral?
O que vimos no contexto da Lava Jato se reproduz sob outra agenda, no episódio do Banco Master.
Como um país e um povo aguentam essas experiências?
Qual é o nosso Karma?
Onde erramos tanto?
Parece que sobrevivemos sob o hino de que, impunemente, podemos “levar vantagem em tudo”!
Muitos agem como narcisistas ou psicopatas, sem empatia, fazendo simplesmente o que desejam e sem se importar com os resultados ou com o que causam a terceiros. Enquanto isso, vivenciamos a nossa realidade e as nossas experiências com ônibus cheios, metrôs e trens lotados, ruas esburacadas, esgoto a céu aberto, frequentes faltas de luz, alagamentos nas chuvas, congestionamentos sem fim – e parece que está tudo de boa, desde que tenhamos uma cervejinha gelada para aliviar a pressão.
Será que tantos acham que podem fazer o que querem, impunemente, a qualquer custo, como se acima de tudo importasse apenas ganhar dinheiro?
Será que, do outro lado do ringue, o povão compreende o jogo e percebe que acaba pagando a conta?
Parece que as leis e regras de boa conduta estão fora de moda… tudo está de boa, importando o faturamento do dinheiro, no job, no jogo ou no crime – não importa – a ponto de nos fazer lembrar daquela frase do Aleister Crowley (tido como “o homem mais perverso do mundo”), que dizia “faz o que tu queres, pois é tudo da lei”. Em resumo, verdadeiro “Vale tudo”, como cantava o Tim Maia – que poderia ser a trilha sonora destes dias.
Isso esvazia a crítica social do Cazuza, quando cantava O Tempo Não Para e falava em piscinas “cheias de ratos”. Ali, ainda se distinguiam os desvios e erros da ética e da estética aceitáveis. A repulsa, apontada pelo compositor, parece ter-se evaporado.
Quando o crime organizado chega ao andar de cima da Faria Lima, já não se pode criticar “os ricos”, pois alguns destes são os “desprivilegiados” de outrora. O “nós contra eles” se perde e cria crises que se alimentam em labirintos sem fim. Aliás, conceitos caracterizadores da esquerda e da direita parecem importar mais nas campanhas diárias do que na execução dos governos, diante dos recentes e imensos aumentos dos impostos e da reforma administrativa em curso. Enquanto isso, o povão não está nem aí… E pensar que a Inconfidência Mineira, como movimento pela Independência, foi motivada pelo imposto de 20% (O Quinto dos Infernos) sobre o ouro extraído. Hoje se fala que proprietários de imóveis, que venham a ser alugados por curto período, pagarão 44% de imposto – e ninguém se importa, mesmo que sejam os inquilinos a pagar e haja aumento nos preços e afetação do turismo… Mas nada disso importa, se o dindim pingar nos cofres públicos.
O inacreditável é que tenhamos sobrevivido à Lava Jato e não tenhamos afundado de vez nem com os escândalos do INSS. É incrível que estejamos retornando aos ecos dos piores exemplos de corrupção da história, com os escândalos que, agora, envolvem o Master, Poderes e gente importante. Como tantas coisas ocorreram e só agora explodiram?
Isso nos leva a refletir se estão funcionando os mecanismos de freios e contrapesos dos 3 Poderes. É conveniente, também, considerar que um Poder não deve minar outro, já que todos os três são partes do mesmo e único corpo, como as cabeças da mitológica Hydra de Lerna.
Por falar em cabeças, quando um Poder ataca outro, isso costuma dar enxaqueca no povo.
Em verdade, se estamos mal acostumados e habituados com a imagem de salvadores da pátria, se somos dependentes de tutores capazes de resolver os nossos problemas e se adoramos culpar terceiros pelo que não fizemos de certo, então estamos no estertor da irresponsabilidade social e uma hora a conta chegará… isso é certo.
Sobre esse novo escândalo nacional, o que os jornais falam e com as contradições em depoimentos, é fácil se concluir que há sombras e zonas obscuras demais, demonstrando que muito ainda há porvir.
Aliás, é conveniente refletir que o assunto reintroduziu a corrupção e os seus tentáculos na capa dos jornais e na campanha política de 2026, que elegerá o novo presidente para o mandato a se iniciar em 2027, ano em que, já se sabe, teremos um sério problema com as contas públicas, fruto dos desalinhos dos anos recentes.
Estamos nos acostumando com o cheiro de podre nos banheiros de mármore. Poucos enxergam a realidade e muitos estarão focando nas suas versões sobre o que acreditam ser a única verdade existente, ora falando da qualidade arquitetônica do revestimento daquelas paredes, das torneiras douradas e do bom gosto da obra, ora dos frequentadores usando vestidos assinados ou impecáveis ternos e colarinho branco, ora falando do cheiro de podre que sobe dos ralos e empesteia o ambiente. Todos estarão certos, parcialmente, já que vêem o que conseguem e falam do que percebem… ou selecionam. Poucos, porém, têm a aguda percepção de juntar todos esses elementos e notar como estão interligados.
Numa metáfora, o problema do mau cheiro do banheiro não será resolvido com discurso bem produzido sobre a beleza das paredes de granito. É preciso que sejam quebradas as paredes, para que os canos de esgoto possam ser consertados, drenando-se a fétida massa de lama. Depois, é preciso que se coloque novos canos e boa vedação. Só assim um novo revestimento de granito poderá ser colocado na parede desse edifício chamado Brasil.
CHEIRO DE PODRE NOS BANHEIROS DE MÁRMORE

