Outro dia, assistindo a um documentário de Carl Sagan, fui alcançado por uma ideia que não se contentou em passar pela minha mente, ela exigiu pausa, reflexão e introspecção. Fui tão profundamente atingindo, que logo no dia seguinte compartilhei essa experiência com o meu amigo, Vicente Cruz, que além de exímio escritor é também um amante de física quântica. No documentário, Sagan propunha condensar os 13,8 bilhões de anos do Universo em um único ano do nosso calendário. Onde, um mês equivaleria a 1,15 bilhões de anos; um dia seria 37,8 milhões; uma hora equivaleria a 1,575 milhões de anos, um minuto seria 26.250 anos e; um segundo seria 438 anos. O Big Bang ocorreria à meia-noite de 1º de janeiro. O presente, exatamente às 23h59min50s do dia 31 de dezembro. E toda a história humana, com suas guerras, amores, descobertas, quedas e esperanças, estaria confinada aos últimos dez segundos do último dia do ano.
Pausei o vídeo. Não por dificuldade de entender o que se falava, mas porque senti havia ali uma dimensão que ultrapassava a cosmologia e tocava algo mais profundo, ligado ao próprio sentido de ser humano diante do tempo, da criação e do mistério da vida.
Vivemos em uma cultura que nos ensinou a medir o mundo a partir de nós mesmos. Tudo parece girar em torno da nossa urgência, da nossa produtividade, da nossa centralidade imaginada. Mas o calendário cósmico desmonta essa ilusão com delicadeza, pois ele nos retira do centro sem nos expulsar do sentido. Apenas nos recoloca no lugar correto, a de criaturas dentro da criação.
Enquanto surgimos quando o relógio já se aproxima da meia-noite, o Universo havia vivido quase tudo. Estrelas nasceram e morreram durante meses inteiros desse “ano”. Galáxias se organizaram quando ainda era primavera. O Sistema Solar só aparece em setembro. A Terra surge em meados do mesmo mês. A vida, silenciosa e insistente, emerge dias depois. A consciência, então, só aparece quando o tempo já está praticamente esgotado.
Diante disso, poderíamos concluir que somos irrelevantes. Mas essa leitura ignora algo essencial. A Bíblia, de maneira curiosamente convergente com a cosmologia moderna, jamais descreveu o ser humano como o maior em extensão ou duração, mas como o portador de sentido. “Que é o homem, para que dele te lembres?”, pergunta o salmista, não em tom de desprezo, mas de assombro. Pequeno diante dos céus, sim, mas lembrado.
Talvez o erro moderno tenha sido confundir centralidade física com dignidade ontológica. Não somos o centro do Universo no espaço nem no tempo. Mas somos, até onde sabemos, a criatura capaz de reconhecer o Universo como criação. Capaz de olhar para o todo e perguntar pelo seu fundamento. Capaz de experimentar a vida não apenas como evento biológico, mas como dom.
O calendário cósmico, lido à luz da teologia, não diminui o homem. Ele o revela. Revela que nossa grandeza não está em durar bilhões de anos, mas em sermos finitos abertos ao infinito. Não está em ocupar muito espaço, mas em carregar dentro de nós uma sede que o espaço não sacia.
A tradição bíblica afirma que o ser humano é feito do pó da terra, ou seja, matéria comum, ordinária, cósmica e, ao mesmo tempo, animado por um sopro que não se reduz à química. “Pó e fôlego.” Limite e transcendência. Biologia e mistério. Talvez nunca uma definição tenha sido tão atual.
Somos, literalmente, poeira das estrelas. Mas somos também capazes de perguntar pelo sentido dessa poeira organizada. Somos matéria que ora, que pensa, que ama, que sofre, que cria símbolos para tentar tocar o eterno. O Universo levou bilhões de anos para produzir algo que pudesse contemplá-lo. E, segundo a fé tenho em Jesus Cristo, não apenas contemplá-lo, mas dialogar com seu Criador.
Isso muda completamente a forma de olhar para a brevidade da vida. Se tudo o que somos cabe em dez segundos do calendário cósmico, então cada segundo vivido carrega um peso espiritual imenso. Não somos chamados a dominar o tempo, mas a habitar o tempo com sentido.
Talvez seja por isso que a teologia sempre desconfiou da obsessão humana por grandeza exterior. O Reino de Deus, diz Jesus, não vem com aparência visível. Ele acontece no interior, no oculto, na mente e no coração. Assim como a consciência humana surge apenas no último instante do calendário cósmico, o sentido também costuma nascer longe do espetáculo.
Tenho pensado que uma das maiores tragédias contemporâneas é reduzir a vida a desempenho. Acordar, produzir, consumir, repetir. Como se existir fosse apenas cumprir funções. Mas o ser humano não foi criado apenas para funcionar. Foi criado para experimentar, interpretar e responder à própria existência.
Responder — eis uma palavra teológica fundamental. A fé ensinada na bíblica não entende o homem como um objeto passivo no mundo, mas como um ser responsivo. Alguém que ouve, percebe, discerne e responde. A vida, então, deixa de ser apenas algo que acontece conosco e passa a ser algo com o qual dialogamos.
Quando compreendo minha existência como transitória, breve, limitada e preciosa, sou convidado a vivê-la com mais atenção e menos arrogância. O calendário cósmico, nesse sentido, funciona como uma parábola moderna. Ele nos lembra que não somos deuses, mas também não somos acidentes.
Nunca uma criatura tão recente teve tamanho poder. Em poucos segundos cósmicos, aprendemos a manipular a matéria, dividir o átomo, alterar o clima, decidir o destino de espécies inteiras. Nossa capacidade técnica cresceu mais rápido do que nossa sabedoria. Somos jardineiros de um instante. Cuidadores de um fragmento do tempo. Peregrinos de uma criação que não nos pertence, mas nos foi entregue. Isso não diminui a liberdade humana; dá a ela direção.
Quando olho para o céu depois de pensar nisso tudo, ele já não me parece silencioso. Ele parece cheio de sentido não dito. Cada estrela se torna um lembrete da grandeza da criação. Cada noite, um convite à humildade. Cada amanhecer, uma renovação da pergunta: o que farei com o tempo que me foi confiado hoje?
Se toda a história humana cabe em dez segundos de um calendário universal, então cada gesto importa. Importa como tratamos uns aos outros. Importa como cuidamos da Terra. Importa como usamos o conhecimento. Importa se escolhemos viver como quem atravessa uma experiência extraordinária ou como quem apenas sobrevive distraído.
Talvez não sejamos o centro do cosmos. Mas acredito sermos, o lugar onde a criação ganha voz, consciência e louvor. O lugar onde o tempo encontra o eterno. O lugar onde o pó encontra Deus.
Se estamos mesmo vivendo os últimos segundos de um grande ano cósmico, que saibamos vivê-los não com desespero, mas com responsabilidade, admiração e gratidão. Não como quem teme desaparecer, mas como quem reconhece que existir, ainda que por pouco tempo, já é um milagre. Porque, no fim, talvez o sentido da nossa presença não esteja na duração da nossa passagem, mas na profundidade com que fomos capazes de responder ao mistério de ter sido criados e de saber que fomos.
Reflita, caro leitor.

