Para meu filho Edu!
A redemocratização brasileira não foi um gesto de conciliação; foi um ato de impaciência histórica. Ela nasceu quando a sociedade percebeu que esperar também é uma forma de submissão. As Diretas Já não foram apenas um movimento político — foram um momento filosófico raro, quando a ideia abstrata de soberania popular atravessou o corpo das pessoas e ocupou o espaço público.
Durante vinte e um anos, o país foi educado para o silêncio. Silêncio como virtude cívica. Silêncio como sinônimo de responsabilidade. Silêncio como condição de sobrevivência. A ditadura não se sustentou apenas pela força das armas, mas pela pedagogia do medo. O que as Diretas Já fizeram foi romper esse aprendizado: ensinaram novamente a falar.
“Quando o medo muda de lado, o poder começa a ruir.”
A exigência do voto direto não era uma demanda técnica do sistema eleitoral; era uma recusa existencial. Ao pedir eleições diretas, a sociedade dizia algo mais profundo: não aceitamos mais ser tutelados. A transição “lenta, gradual e segura” proposta pelo regime era, no fundo, uma tentativa de controlar o futuro — como se a democracia pudesse nascer com coleira.
As praças cheias, os comícios multitudinários, os discursos inflamados não eram espetáculos: eram rituais de reaprendizado democrático. O povo reaprendia a existir politicamente. Ali, a política deixava de ser um assunto de gabinete e voltava a ser um assunto de vida.
“A democracia não começa no voto; começa quando o cidadão perde o medo de existir em público.”
O Congresso rejeitou a emenda das Diretas. Formalmente, a derrota foi registrada. Historicamente, porém, o regime já havia perdido. Porque há derrotas que encerram ciclos, e vitórias que apenas os prolongam. A eleição indireta de Tancredo Neves foi o reconhecimento tardio de um fato consumado: governar sem consentimento já não era possível.
Nesse contexto, a figura de Ulysses Guimarães simbolizou mais do que liderança política; representou a voz institucional de uma ruptura moral. Quando afirmou que “a sociedade foi o Rubicão da legalidade”, não falava apenas do Congresso ou da Constituição, mas da travessia irreversível feita pelas ruas. O Brasil havia cruzado um ponto sem retorno.
“Legalidade sem legitimidade é apenas burocracia armada.”
A redemocratização brasileira, contudo, não foi um acerto de contas completo. Houve pactos, silêncios e esquecimentos convenientes. Torturadores não foram julgados. Estruturas autoritárias sobreviveram. A democracia nasceu com cicatrizes — e algumas feridas mal fechadas. Ainda assim, nasceu porque houve quem aceitasse o risco de falar quando calar era mais seguro.
As Diretas Já ensinam, com brutal clareza, que a democracia não é um estado permanente, mas uma tensão contínua. Ela existe enquanto há conflito, vigilância e participação. Morre quando vira rotina, quando é tratada como herança garantida.
“Toda democracia que se acomoda começa a negociar com o autoritarismo.”
Por isso, lembrar as Diretas não é um exercício de nostalgia, mas de responsabilidade. Elas não pertencem ao passado; pertencem a toda geração que se recusa a aceitar que o poder seja exercido sem consentimento. A história brasileira mostra que, sempre que o povo foi afastado da decisão, alguém decidiu contra ele.
As Diretas Já foram o momento em que o Brasil disse, coletivamente, que não aceitaria mais ser governado no escuro. E essa talvez seja sua lição mais incômoda e mais atual: quando a sociedade fala, a história anda; quando se cala, a história anda por cima dela.
“Calar nunca foi neutro. Sempre foi uma escolha — quase sempre a errada”.
Inverno de 2026

